Planejada desde 2001 para conectar o Amapá ao restante do país por via terrestre, a ponte do Rio Jari continua sem funcionar plenamente mais de duas décadas depois. A estrutura, que liga Laranjal do Jari (AP) ao distrito de Monte Dourado (PA), permanece inacabada e mantém moradores, empresas e serviços públicos dependentes de balsas caras, lentas e instáveis.
Com 406 metros de extensão, a ponte já consumiu cerca de R$ 21 milhões até 2024, mas nunca foi entregue à população. O atraso transformou a obra em um símbolo concreto das promessas empacadas da infraestrutura amazônica, mesmo sendo considerada estratégica para a Rota de Integração 01, incorporada recentemente ao Novo PAC.
Uma travessia que trava a integração regional
Hoje, toda a circulação de pessoas e mercadorias entre o sul do Amapá e o oeste do Pará depende exclusivamente do transporte fluvial. As balsas operam com horários limitados, estão sujeitas às condições climáticas e frequentemente enfrentam paralisações, o que afeta diretamente:
- o preço de alimentos e combustíveis;
- o transporte de pacientes e estudantes;
- o deslocamento de servidores públicos;
- a logística de empresas e da produção regional.
Na prática, a ausência da ponte funciona como um pedágio invisível, encarecendo o custo de vida e dificultando qualquer planejamento econômico de longo prazo.
Custos inflados e debate distorcido
Embora manchetes nacionais já tenham associado a ponte a cifras de até R$ 400 milhões, dados técnicos indicam que esse valor não corresponde à realidade da obra. Em 2020, estimativas apontavam a necessidade de cerca de R$ 60 milhões para a conclusão total. Com a inclusão no Novo PAC, estão previstos ao menos R$ 10 milhões adicionais em intervenções, mas sem cronograma definido.
A confusão de números acabou desviando o foco do problema central: a falta de continuidade administrativa, planejamento e fiscalização capazes de concluir uma obra de porte relativamente modesto, mas de enorme impacto regional.
Vinte anos de paralisações e revisões
Desde o início, a construção da ponte do Rio Jari foi marcada por interrupções. Danos em pilares provocados por embarcações, revisões contratuais, mudanças de prioridade orçamentária e longos períodos de abandono se sucederam ao longo de diferentes governos.
O resultado é uma estrutura praticamente pronta, mas sem operação, enquanto a população segue presa a um sistema de travessia saturado e imprevisível.
Impacto direto na vida de quem vive entre Pará e Amapá
Moradores de Laranjal do Jari e Monte Dourado convivem diariamente com filas, atrasos e cancelamentos de travessia. Em períodos de cheia ou estiagem extrema, a situação se agrava ainda mais.
Empresas enfrentam fretes mais caros, prazos incertos e risco de ruptura logística. Serviços públicos têm dificuldade para deslocar equipes e equipamentos. Investimentos privados esbarram na insegurança do acesso terrestre.
Entraves além do orçamento
Especialistas apontam que o atraso não se explica apenas pela falta de recursos. A obra enfrenta desafios técnicos, institucionais e logísticos, como:
- fiscalização em área remota;
- ajustes estruturais exigidos pela navegação no Rio Jari;
- transporte de materiais em região isolada;
- impactos das variações extremas do nível do rio.
Sem gestão contínua e monitoramento rigoroso, cada nova estação climática amplia custos e empurra o cronograma para frente.
Teste de credibilidade para a integração amazônica
A inclusão da ponte na Rota de Integração 01 pode representar uma chance real de destravar o projeto, desde que haja metas claras, fiscalização efetiva e transparência nos desembolsos.
Mais do que uma obra local, a ponte do Rio Jari tornou-se um teste de credibilidade para a política de integração da Amazônia. Se uma estrutura de pouco mais de 400 metros leva quase três décadas para ser entregue, a confiança em corredores logísticos mais complexos tende a se deteriorar.
Enquanto isso, moradores do Pará e do Amapá seguem esperando por algo básico: uma ligação terrestre contínua que já deveria existir há mais de 20 anos.



