NACIONALNOTÍCIASPOLÍTICA

Exército gasta mais com viúvas e herdeiros de generais do que com soldados

O sistema de pensões no Exército brasileiro tem sido alvo de críticas devido ao alto gasto destinado às viúvas e herdeiros de generais em comparação aos soldados. Dados obtidos pelo UOL revelaram que essas pensões chegam a bilhões de reais anualmente, superando o valor destinado aos cabos e soldados em conjunto.

Surpreendentemente, alguns oficiais conseguiram deixar pensões para seus herdeiros mesmo estando vivos, como é o caso do ex-major Ailton Barros, recentemente preso sob acusação de falsificação de atestados de vacinação ligados ao círculo pessoal do presidente Jair Bolsonaro. Barros, que já havia sido expulso do Exército por atropelar colegas de farda e realizar campanha eleitoral dentro da Vila Militar, perdeu sua patente, mas não perdeu o direito à pensão. Nos últimos três anos, sua esposa recebeu mais de 1 milhão de reais como viúva, mesmo ele estando vivo.

Essa prática questionável se baseia nas regras do Exército, em que os militares contribuem em vida para o pagamento das pensões às suas viúvas, e mesmo sendo expulsos, não perdem esse direito. Esse sistema tem gerado críticas sobre a perpetuação de privilégios na carreira militar.

Os dados revelaram que as herdeiras dos oficiais falecidos consomem a maior parte dos recursos públicos. Especialmente as filhas dos generais, que recebem pensões integrais. O UOL identificou que há mais generais por soldado no Exército brasileiro do que no Exército dos Estados Unidos, país que detém a maior força militar do mundo. Proporcionalmente, um general brasileiro comanda quase a metade dos soldados que um general americano.

A estrutura hierárquica do Exército brasileiro também contribui para a crescente despesa. Para cada general na ativa, há 24 generais aposentados ou na reserva, conhecidos como “generais de pijama”, e 48 herdeiros recebendo pensões integrais. Esse sistema de privilégios resulta em um efeito cascata, levando a um aumento exponencial nos custos.

Em 2022, o gasto com aposentadorias e pensões alcançou R$ 3,7 bilhões. Somado aos salários dos generais da ativa, que totalizam cerca de R$ 100 milhões ao ano, o custo das aposentadorias e pensões de generais e seus herdeiros ultrapassou R$ 3,8 bilhões. Esse valor corresponde ao montante utilizado pelo governo para pagar os salários de todos os 90 mil soldados e cabos da ativa no mesmo ano, ou seja, é 40 vezes maior do que o valor destinado aos 175 generais em atividade.

Nos últimos quatro anos, o Brasil gastou R$ 94 bilhões em pensões para herdeiros de militares de todas as patentes, um valor que seria suficiente para beneficiar quase 3 milhões de famílias pelo mesmo período no programa Bolsa Família.

Essa disparidade nos gastos levanta questões sobre a justiça e a sustentabilidade do sistema de pensões no Exército. Por que algumas viúvas e herdeiros recebem benefícios tão elevados em comparação aos soldados que estão na linha de frente?

A maior parte dos recursos utilizados para pagar as pensões aos herdeiros de militares vem do Tesouro Nacional. Essas pensões começaram a ser pagas em 1939, inicialmente para os sobreviventes da Guerra do Paraguai e suas viúvas. Posteriormente, as filhas das viúvas passaram a herdar as pensões quando suas mães faleciam.

Em 2001, o governo decidiu encerrar esse benefício, porém, manteve-o para aqueles que ingressaram nas Forças Armadas antes desse ano. Isso significa que mesmo os cadetes que estavam na academia militar e ainda não tinham filhos puderam manter o direito às pensões para seus futuros herdeiros.

Segundo projeções do Ministério da Defesa com base na expectativa média de vida das viúvas e herdeiros, os contribuintes continuarão pagando essa conta até o ano de 2096.

Diante dessas revelações, surgem questionamentos sobre a necessidade de revisar e reformar o sistema de pensões no Exército. Alguns argumentam que é preciso garantir uma distribuição mais equitativa dos recursos e eliminar privilégios excessivos, direcionando os recursos de forma mais justa e direta para os soldados em atividade.

Esse debate sobre os custos e a sustentabilidade das pensões militares certamente continuará, e é importante que sejam buscadas soluções que levem em consideração a equidade, a eficiência e a responsabilidade fiscal, garantindo que os recursos públicos sejam utilizados de maneira justa e em benefício de toda a sociedade.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Fechar