Na imensidão da Amazônia, entre rios caudalosos e florestas que se perdem no horizonte, existe um lugar onde a pressa não reina, os carros não têm vez e a vida acontece sobre duas rodas. Afuá, município localizado na Ilha do Marajó — considerada a maior ilha fluviomarinha do planeta — é um exemplo singular de urbanismo sustentável e cultura amazônica. Conhecida como a “Veneza Marajoara”, a cidade encanta visitantes e intriga curiosos por sua peculiaridade: o único meio de transporte autorizado é a bicicleta.
Com cerca de 40 mil habitantes, Afuá está situada a aproximadamente 90 quilômetros de Macapá (AP), separada por rios que funcionam como as verdadeiras estradas da região. Em um lugar onde os carros são proibidos, as ruas são suspensas por palafitas, cortadas por pequenos canais e cheias de bicicletas, que dominam a paisagem urbana.
Uma cidade que respira pedaladas
Por aqui, aprender a pedalar é quase um rito de passagem. Para a professora Maíra Yonara Silva de Moura, de 38 anos, nascida e criada no município, não existe outra forma de vida. “Eu nem me lembro de quando aprendi a andar de bicicleta. Sei que volta e meia chegava em casa com hematomas das quedas”, relembra, sorrindo.
Ela ainda guarda na memória a primeira bicicleta: uma BMX cor-de-rosa, que a acompanhava pelas passarelas de madeira que cortam a cidade. “Viver em um lugar onde a bicicleta é o único meio de locomoção é maravilhoso. Além dos benefícios para a saúde, é um momento de relaxamento. Dá tempo de ver a paisagem, cumprimentar os vizinhos, sentir a brisa do rio”, conta.
Esse estilo de vida influencia diretamente na qualidade de vida dos moradores. Maíra diz que em menos de 10 minutos está no trabalho, algo impensável em grandes centros urbanos. “Não existem engarrafamentos nem buzinas. Às vezes, os bairros mais distantes exigem mais esforço, mas com organização tudo dá certo”, afirma.
Entre rios e passarelas: a geografia que molda Afuá
Construída sobre palafitas para se adaptar às cheias dos rios amazônicos, Afuá convive com variações do nível da água durante o ano. Em março e abril, meses de cheia, é comum que a maré alta se aproxime das casas, mas, em geral, as elevações garantem a segurança dos moradores.
O acesso à cidade também revela sua singularidade: não há estradas terrestres. Para chegar até lá, só de barco, lancha ou avião de pequeno porte. A conexão mais próxima é com Macapá, no Amapá, a cerca de duas horas de viagem de lancha. “Para serviços de saúde mais complexos, muita gente prefere Macapá, porque Belém leva até três dias de viagem de barco”, explica Maíra.
Infância livre e segurança sobre rodas
A rotina simples é uma das maiores vantagens para quem cresce em Afuá. Maíra é mãe de Homero, de 11 anos, que começou a pedalar aos 4. “É um privilégio criar meu filho aqui. Ele vai e volta da escola sozinho de bicicleta. Apesar da tecnologia e da internet, ainda vemos crianças brincando nas ruas, jogando bola, empinando pipa. Existe uma liberdade que já não se vê nas capitais”, afirma.
A ausência de carros também reflete na segurança. Acidentes graves são raros. A Polícia Militar faz rondas a pé ou de bicicleta, reforçando a relação próxima com a comunidade. “O policiamento comunitário é prioridade. Segurança pública se constrói junto com os cidadãos”, destaca um porta-voz da PM.
Bicicletas que apagam incêndios e salvam vidas
Se as viaturas não entram, a criatividade resolve. A Brigada de Combate a Incêndio da cidade utiliza uma bicicleta adaptada com quatro rodas, apelidada de bicilância, para carregar mangueiras e equipamentos. O bombeiro Leno Moraes, de 41 anos, explica: “O treinamento é o mesmo das grandes cidades, mas o deslocamento é diferente. Conhecer bem as ruas é essencial. A maioria dos atendimentos são para pequenas ocorrências, como quedas e fraturas, mas também já fizemos partos e combatemos incêndios”.
Cultura da bicicleta: símbolo de identidade e turismo
Nas redes sociais, Afuá virou fenômeno. Vídeos e fotos mostrando ruas tomadas por bicicletas, inclusive as filas de bicitáxis e as portas das escolas lotadas de bikes, viralizam com frequência. Para o fotógrafo Fabrício Guedes Dias, de 25 anos, isso não é surpresa: “A vida aqui encanta quem busca tranquilidade e sustentabilidade. A relação do afuaense com a bicicleta começa cedo. Bebês vão na cadeirinha, e quando crescem, já assumem o guidão. É parte da nossa identidade”.
Os visitantes têm opções para alugar bicicletas ou experimentar os tradicionais bicitáxis, triciclos adaptados para levar passageiros. “Eles foram inventados por um morador, Sarito Souza. Quem mais usa são os turistas, porque os moradores já nascem sabendo pedalar”, brinca Fabrício.
Entre os passeios imperdíveis, está o circuito pela orla para apreciar o pôr do sol sobre as águas do rio. “É um espetáculo que não existe em qualquer lugar. A cidade é calma, mas cheia de vida”, conclui.
Afuá: símbolo de sustentabilidade e futuro
Em um mundo onde a poluição dos carros e os congestionamentos dominam os centros urbanos, Afuá surge como um exemplo vivo de mobilidade sustentável. Não por imposição de moda, mas por tradição. “Aqui, a bicicleta não é tendência. É nossa história”, resume Fabrício.



