A decisão do governo da China de impor uma tarifa adicional de 55% sobre importações de carne bovina que ultrapassem a cota anual, a partir de 1º de janeiro de 2026, acendeu um sinal de alerta no Pará. Embora a medida afete todo o Brasil, especialistas e representantes do setor avaliam que os impactos podem ser mais intensos no estado, tanto na economia local quanto no preço da carne consumida pela população.
A salvaguarda foi anunciada pelo Ministério do Comércio chinês e estabelece uma cota total de 2,7 milhões de toneladas para 2026, volume próximo ao recorde registrado em 2024. Todo o excedente será taxado em 55% pelos próximos três anos, com aumento gradual da cota ao longo do período. A justificativa oficial é proteger a pecuária chinesa, que enfrenta excesso de oferta e dificuldades de competitividade diante de grandes exportadores como Brasil e Argentina.
Brasil e Pará acima do limite
O Brasil está entre os países que já ultrapassaram o novo teto. Apenas nos primeiros 11 meses de 2025, o país exportou 1,33 milhão de toneladas de carne bovina para a China, volume superior ao permitido pela nova regra.
No caso do Pará, a preocupação é ainda maior. O estado possui um dos maiores excedentes de produção de carne bovina do país, estimado em cerca de 700 mil toneladas, e tem na China um de seus principais destinos comerciais. Em 2025, aproximadamente 77% de toda a carne bovina exportada pelo Pará teve como destino o mercado chinês, o equivalente a cerca de 155 mil toneladas.
Efeito em cadeia no setor
Em nota conjunta, o Sindicato da Indústria da Carne do Pará (Sindicarne) e a União Nacional da Indústria da Carne (Uniec) afirmaram receber a decisão com “extrema apreensão”. Segundo as entidades, a dependência do Pará em relação à China é agravada pelo fato de o estado ainda não ter acesso a mercados estratégicos como Estados Unidos, União Europeia, Chile e México.
Na prática, a sobretaxa pode gerar um efeito em cadeia. Com o aumento do custo das exportações, parte dos embarques pode se tornar economicamente inviável. Isso tende a reduzir a demanda por gado, pressionando para baixo o preço da arroba — unidade de 15 quilos utilizada na pecuária — pago aos produtores de boi e vaca.
A desvalorização pode frustrar investimentos recentes feitos por pecuaristas e frigoríficos para atender às exigências do chamado “boi China”, padrão que envolve animais mais jovens, rastreabilidade total e práticas sustentáveis de produção. Nos últimos anos, esse modelo impulsionou a modernização da pecuária paraense, com foco em qualidade e agregação de valor.
Possível impacto no preço ao consumidor
O impacto não deve ficar restrito ao campo. Um dos pontos destacados pelas entidades do setor é o risco de aumento do preço da carne bovina para o consumidor paraense. Com ajustes no mercado e dificuldades para escoar parte da produção, pode haver redução da oferta de determinados cortes, pressionando os preços no varejo.
Atualmente, o mercado do boi destinado à China serve como referência importante no Pará. No fim de dezembro de 2025, o boi China a prazo era negociado, em preço bruto, por cerca de R$ 307 a arroba em Paragominas e R$ 305 em regiões como Redenção e Marabá, valores sustentados pela forte demanda externa.
Especialistas ressaltam, no entanto, que as exportações não concorrem diretamente com o abastecimento interno. Segundo o setor, além do grande excedente de produção, a adequação ao mercado chinês gera maior oferta de outros cortes mais consumidos no mercado local. Ainda assim, a instabilidade provocada pela nova tarifa pode desorganizar esse equilíbrio.
Dependência do mercado chinês e busca por alternativas
Do lado chinês, o governo afirma que a medida não tem como alvo um país específico e busca apenas dar fôlego à indústria doméstica. Mesmo com uma leve queda de 0,3% nas importações chinesas de carne bovina nos primeiros 11 meses de 2025, a China segue como o maior comprador do produto brasileiro no mundo.
Para o setor paraense, a principal saída é a diversificação de mercados. As entidades defendem uma mobilização conjunta de forças políticas, empresariais e governamentais para acelerar a habilitação do Pará a novos destinos internacionais e reduzir a dependência excessiva da China.
“Essas graves consequências podem ser amortecidas caso haja uma forte mobilização liderada pelo governador Helder Barbalho, para que o Ministério da Agricultura e Pecuária acelere os processos de habilitação do Pará a outros importantes mercados, compensando possíveis perdas com a redução das exportações para a China”, conclui a nota.



