O município de São Félix do Xingu, no sudeste do Pará, é oficialmente o maior rebanho bovino do Brasil. Com mais de 2,45 milhões de cabeças de gado, a cidade paraense se consolida como a capital da pecuária de corte nacional, superando, sozinha, o rebanho total de dez estados brasileiros. A média impressiona: são cerca de 37 bois por habitante, reflexo de uma economia profundamente dependente da criação de gado.
Essa liderança, no entanto, traz consigo um paradoxo. O sucesso econômico da região é acompanhado por altos índices de desmatamento, conflitos agrários e pressão sobre Terras Indígenas e Unidades de Conservação, que representam mais de 70% do território do município. É a face contraditória de um dos maiores polos do agronegócio do país, situado no coração da Amazônia Legal.
Pecuária e economia local
A pecuária extensiva domina a paisagem de São Félix do Xingu, com pastagens ocupando cerca de 20 mil km² e predominância da raça Nelore. O setor agropecuário é responsável por 46,6% do Produto Interno Bruto (PIB) local, estimado em R$ 2 bilhões, e é também o segundo maior empregador da cidade, atrás apenas da administração pública.
Historicamente, a economia do município passou por ciclos extrativistas – como a borracha e a castanha –, mas foi a expansão pecuária, especialmente a partir dos anos 1990, que transformou profundamente sua paisagem e estrutura produtiva.
Território gigantesco e pressionado
Com território equivalente ao de países como a Irlanda, São Félix do Xingu é um dos maiores municípios do Brasil em área. No entanto, mais de 70% de sua extensão está inserida em Terras Indígenas e áreas de preservação ambiental, o que acirra o debate sobre os limites da expansão agropecuária na Amazônia.
A pressão fundiária, o avanço irregular sobre áreas protegidas e os conflitos com comunidades indígenas e populações tradicionais compõem o outro lado do crescimento acelerado da pecuária local.
Sustentabilidade e alternativas
Apesar dos desafios, iniciativas de transição para uma pecuária de baixa emissão de carbono e produção sustentável têm ganhado espaço. São Félix do Xingu foi um dos primeiros municípios a aderir ao Plano ABC e participa de programas como o Territórios Sustentáveis, que apoiam a recuperação de pastagens degradadas e a melhoria da produtividade.
A maior inovação é o Sistema de Rastreabilidade Bovídea Individual do Pará (SRBIPA), que busca garantir que o gado produzido no estado esteja livre de ligação com o desmatamento e outras ilegalidades. A meta é atingir 100% do rebanho rastreado, tornando a cadeia produtiva mais transparente e responsável.
Cacau como alternativa econômica
Enquanto a pecuária predomina, a cacauicultura surge como uma alternativa de diversificação. Com foco em sistemas agroflorestais, o cultivo de cacau em áreas já degradadas tem mostrado bons resultados, combinando recuperação ambiental, geração de renda e valorização do trabalho de pequenos produtores e cooperativas locais.
O cenário de São Félix do Xingu expõe o duplo desafio de desenvolver a economia local sem comprometer a floresta, exigindo gestão pública eficaz, parcerias estratégicas e iniciativas que aliem produção e conservação ambiental.



