Antes mesmo de divulgar a programação completa dos 410 anos de fundação de Belém, celebrados em 12 de janeiro, o prefeito Igor Normando (MDB) optou por destacar publicamente um único evento da agenda comemorativa. Em postagem feita no dia 29 de dezembro, já durante o período de férias, o gestor anunciou que, pela primeira vez, a celebração oficial da cidade contará com um Dia Gospel.
“O aniversário de 410 anos de Belém vai ser comemorado em vários dias e, pela primeira vez, vamos ter um Dia Gospel na programação”, afirmou o prefeito. A publicação, no entanto, não apresentou detalhes sobre o restante da agenda nem mencionou a participação de outras expressões religiosas ou culturais.
O anúncio e o silêncio
Na mesma postagem, Normando informou que o Dia Gospel ocorrerá no sábado, 10 de janeiro, no Portal da Amazônia, convidando a população para um momento de “fé e união”. Desde então, representantes e praticantes de outras religiões — incluindo tradições católica, judaica e religiões de matriz africana, como Umbanda e Candomblé — aguardam sinais de que haverá espaço equivalente na programação oficial.
A expectativa se ancora em um princípio constitucional: o Brasil é um Estado laico, sem religião oficial, que garante liberdade de crença e exige neutralidade do poder público diante das manifestações religiosas.
Laicidade e política
A Constituição Federal de 1988 consolidou a separação entre o Estado e as instituições religiosas. Na prática, isso significa que o poder público não deve privilegiar nem discriminar qualquer crença — inclusive por omissão.
O debate, portanto, não questiona a legitimidade da fé evangélica, mas o papel institucional da Prefeitura ao antecipar e destacar exclusivamente uma expressão religiosa dentro de uma comemoração oficial financiada e organizada pelo poder público.
Atrações e os custos
Duas atrações nacionais foram anunciadas para o Dia Gospel, ambas do Rio de Janeiro. Uma delas é o cantor Davi Sacer, ex-integrante das bandas Toque no Altar e Trazendo a Arca, hoje em carreira solo. Com 50 anos, ele é um dos nomes mais conhecidos da música gospel brasileira, com cachê estimado em cerca de R$ 140 mil, podendo variar conforme o contrato.
A outra atração é a banda Novo Som, com mais de quatro décadas de trajetória no pop rock gospel. Embora o cachê não seja oficialmente divulgado, estimativas do mercado apontam valores entre R$ 100 mil e R$ 200 mil por apresentação.
Até o momento, a Prefeitura não detalhou os custos totais do evento nem informou a fonte dos recursos.
Mudança em uma tradição histórica
Historicamente, o aniversário de Belém sempre contou com manifestações religiosas diversas, distribuídas de forma relativamente equilibrada. O dia 12 de janeiro costumava começar com missa na Catedral da Sé, seguida por celebrações evangélicas na praça Dom Pedro II. Em alguns anos, também houve atos simbólicos, como abraços coletivos e orações conjuntas.
Religiões de matriz africana também já participaram de programações culturais e homenagens ao longo das comemorações oficiais da cidade.
A novidade agora é o protagonismo exclusivo de um segmento religioso, com direito a um dia inteiro previamente anunciado, antes mesmo da divulgação da programação geral.
Fator pessoal entra no radar
Nos bastidores, a mudança de ênfase tem sido associada a fatores pessoais. A esposa do prefeito, Fabíola Cabral, é evangélica e natural de Pernambuco. Em redes sociais, chamou atenção sua ausência em eventos católicos tradicionais, como a abertura do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, quando Normando participou sozinho ao lado de autoridades.
Em 30 de novembro, Dia do Evangélico, o prefeito publicou uma foto ao lado da esposa com legenda exaltando sua fé e destacando sua influência espiritual na família.
Repercussão nas redes
Nas redes sociais, a reação foi mista. No Instagram, predominaram mensagens de apoio e agradecimento pela iniciativa. Já no Facebook, surgiram críticas — ainda que minoritárias — questionando a compatibilidade da decisão com o princípio do Estado laico e alertando para o risco de instrumentalização política da fé, especialmente em um contexto pré-eleitoral.
Entre elogios e questionamentos, a discussão segue aberta: até que ponto uma gestão municipal pode destacar uma religião específica em uma comemoração oficial sem comprometer a neutralidade do Estado?
A resposta, por enquanto, permanece indefinida — assim como o restante da programação oficial do aniversário de Belém.



