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Preço do cacau despenca até 75% e produtores do Pará e da Bahia pedem restrição às importações

Queda histórica nas cotações pressiona renda no campo, provoca protestos e leva governos estaduais a cobrar medidas de proteção ao mercado nacional

A forte queda no preço do cacau tem acendido o alerta entre produtores do Pará e da Bahia, dois dos principais polos da cacauicultura brasileira. Após anos de valorização histórica, a cotação da amêndoa despencou nas últimas safras e já provoca impactos diretos na renda de agricultores, mobilizações no campo e articulações políticas por medidas de proteção ao mercado nacional.

Em algumas regiões, a desvalorização chega a 75%, cenário classificado por produtores como “dramático” e insustentável.

Na Bahia, a arroba do cacau, que chegou a ser negociada por mais de R$ 1.200 em 2024, caiu para cerca de R$ 240 a R$ 250 em janeiro de 2026. No Pará, agricultores relatam situação semelhante. Em Medicilândia, um dos principais municípios produtores do estado, o quilo do fruto, que antes era vendido a R$ 80, hoje não ultrapassa R$ 20.

“Essa queda brusca no preço nos causa muita preocupação. Estamos lutando por um valor justo para o nosso produto e pedindo apoio do Estado para garantir a sobrevivência das nossas famílias”, afirmou o produtor José Santo de Moraes.

Pressão das importações e mercado internacional

Produtores atribuem parte da crise ao aumento da oferta global e à entrada de grandes volumes de cacau importado, especialmente da África, o que amplia a concorrência e reduz a competitividade do produto nacional.

No cenário externo, as cotações também recuaram de forma expressiva. Segundo dados do mercado internacional, o preço do cacau em bolsa caiu 63,1% em um ano, refletindo excesso de oferta, mudanças regulatórias e redução de tarifas comerciais.

A combinação entre importações elevadas e preços internacionais mais baixos criou o que agricultores classificam como uma “tempestade perfeita” para o setor.

Protestos e mobilização política

A crise já provocou protestos e bloqueios de rodovias no sul da Bahia e em municípios do Pará. Os produtores cobram medidas emergenciais, como garantia de preços mínimos, revisão das importações e políticas de incentivo à produção local.

Na Bahia, o governador Jerônimo Rodrigues (PT) criou uma comissão com representantes do governo e do setor produtivo para elaborar um plano de enfrentamento à queda das cotações.

No Pará, o governador Helder Barbalho (MDB) articula junto ao Ministério da Agricultura a discussão de restrições ou revisão das importações, apontadas como um dos fatores que pressionam o mercado interno. Uma reunião em Brasília foi marcada para debater alternativas de proteção ao setor.

Atualmente, o Pará é o maior produtor de cacau do Brasil, respondendo por mais da metade da produção nacional. Em 2024, o estado ultrapassou 153 mil toneladas, gerando mais de 320 mil empregos diretos.

No Congresso, a Frente Parlamentar do Cacau também discute propostas para fortalecer a cadeia produtiva, incluindo mecanismos de apoio financeiro, defesa sanitária e melhorias logísticas.

Chocolate pode ficar mais barato?

Com a queda no preço da matéria-prima, especialistas avaliam que o consumidor pode sentir algum alívio no valor do chocolate nos próximos meses. No entanto, o repasse não deve ser imediato.

A expectativa é de que a redução leve de seis a oito meses para chegar às prateleiras, já que a indústria ainda trabalha com contratos firmados em períodos de preços mais altos. O leite, outro insumo importante, também registra queda de mais de 5% no início de 2026, o que pode ajudar na redução de custos.

Até lá, produtores seguem pressionados, enquanto governos tentam equilibrar competitividade internacional e proteção à produção nacional.

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