A ideia parece roteiro de filme, mas faz parte de um dos capítulos mais tensos da história recente do Brasil: o Pará esteve, de fato, no centro de planos do governo federal para testes nucleares e também para o armazenamento de lixo radioativo.
Tudo começou a vir à tona em 1986, quando o jornal Folha de S.Paulo revelou a existência de estruturas subterrâneas na Serra do Cachimbo, no sul do Pará. O local abrigava poços revestidos de concreto, com centenas de metros de profundidade, que fariam parte de um projeto sigiloso ligado ao programa nuclear brasileiro.
Um “campo de provas” na Amazônia
A base, localizada na Serra do Cachimbo, havia sido escolhida após estudos geológicos e hidrológicos iniciados ainda no início da década de 1980. A região foi considerada ideal para testes subterrâneos — justamente por sua estabilidade geológica e relativo isolamento.
O projeto estava ligado ao chamado Programa Nuclear Paralelo, desenvolvido durante o regime militar, e ao acordo nuclear firmado entre Brasil e Alemanha em 1975, no governo do então presidente Ernesto Geisel.
Anos depois, o próprio José Sarney admitiria, em entrevista, que a estrutura tinha como objetivo servir de base para testes de uma possível bomba atômica brasileira — algo que, na época, foi ocultado sob o argumento de que o local seria apenas um depósito de resíduos nucleares.
O acidente que mudou tudo
Em 1987, um novo episódio agravou a situação: o Acidente radiológico de Goiânia, considerado o maior desastre nuclear da história do Brasil.
Após o manuseio indevido de uma cápsula contendo césio-137, centenas de pessoas foram contaminadas. O processo de descontaminação gerou cerca de 6 mil toneladas de lixo radioativo — e o governo federal precisava decidir onde armazenar todo esse material.
A solução encontrada inicialmente foi justamente enviar os rejeitos para o Pará, utilizando a estrutura já existente na Serra do Cachimbo.
Revolta no Pará: “Não somos a lata de lixo do Brasil”
A decisão provocou uma reação imediata e intensa no estado. O então governador Hélio Gueiros liderou a resistência contra o envio dos rejeitos.
Em carta aberta ao presidente Sarney, ele foi direto: o Pará não aceitaria se tornar depósito de lixo nuclear. A frase “O Pará não é lata de lixo do Brasil” virou símbolo do movimento.
A mobilização ganhou as ruas. Durante o Círio de Nazaré daquele ano, uma das maiores manifestações religiosas do país, romeiros protestaram contra a decisão, carregando faixas e pedindo proteção contra o risco radioativo.
Além da população, a reação envolveu políticos, entidades ambientais, lideranças religiosas e até garimpeiros da região de Itaituba, que chegaram a ameaçar bloquear a passagem de caminhões com os rejeitos.
Confronto iminente e recuo de última hora
O momento mais crítico ocorreu em outubro de 1987, quando um comboio com material radioativo deixou Goiânia com destino ao Pará.
A tensão aumentou rapidamente. Havia ameaça real de confronto na rodovia, com centenas de homens dispostos a impedir a chegada dos caminhões.
Diante do risco, o governo federal recuou. Em uma decisão de última hora, Sarney ordenou o retorno do comboio e abriu discussão nacional sobre o destino dos resíduos.
Destino final e proibição no Pará
Sem alternativas imediatas, os rejeitos acabaram permanecendo em Goiás, armazenados em estrutura construída no Parque Estadual Telma Ortegal, com isolamento em concreto e chumbo.
No Pará, a reação política teve efeito duradouro: o estado aprovou legislação proibindo o depósito de qualquer tipo de lixo radioativo em seu território.
O fim do projeto nuclear na Amazônia
A história da Serra do Cachimbo ganhou um desfecho simbólico em 1990, quando o então presidente Fernando Collor visitou o local.
Na ocasião, ele determinou o fechamento definitivo das estruturas subterrâneas. Em um gesto que marcou o encerramento do programa, participou simbolicamente do lacre de um dos poços, colocando uma pá de cal sobre a área.
Um capítulo pouco conhecido — mas revelador
O episódio expõe um momento em que decisões estratégicas do país quase transformaram o coração da Amazônia em palco de testes nucleares e destino de resíduos perigosos.
Mais do que uma curiosidade histórica, o caso revela tensões entre desenvolvimento, soberania, meio ambiente e justiça territorial — temas que continuam atuais, especialmente na região amazônica.
Décadas depois, a memória desse episódio ainda ecoa como alerta: decisões nacionais podem ter impactos profundos — e nem sempre bem distribuídos — sobre diferentes regiões do Brasil.



