Mais de 1,3 milhão de pessoas que vivem no Pará nasceram em outros estados, segundo dados do Censo 2022. Isso significa que quase 14% da população paraense é formada por migrantes internos. Maranhenses, goianos, mineiros, cearenses e paulistas estão entre os que mais chegam em busca de oportunidades, além de muitos sulistas – gaúchos, paranaenses e catarinenses.
O Pará sempre foi uma terra construída também por quem veio de fora. Muitos paraenses de hoje são filhos e netos de migrantes que chegaram com sonhos, coragem e esperança. Há regiões inteiras marcadas por sotaques diferentes, tradições diversas e culturas que se misturaram à amazônica. Essa pluralidade não é casual: foi o próprio Estado brasileiro que, durante décadas, incentivou a migração para “ocupar terras vazias” com gente vinda de outras partes do país.
Vieram nordestinos para abrir estradas, sulistas para trabalhar em projetos agropecuários, além de milhares de trabalhadores atraídos pelos grandes projetos do governo federal. Mas essa história não é só de oportunidades – é também de conflitos e cicatrizes.
A Transamazônica, aberta nos anos 1970, rasgou a floresta e trouxe consigo ocupação desordenada, desmatamento, queimadas e grilagem. O mesmo vale para megaprojetos como a Usina de Tucuruí e, mais recentemente, Belo Monte, que mudaram rios, comunidades e modos de vida. O massacre de Eldorado do Carajás, em 1996, segue como uma ferida aberta, lembrando que a luta por terra e direitos também marcou essa história.
O sudeste e o sudoeste paraense, regiões que concentram a mineração e a pecuária, são exemplo claro desse processo: cidades como Parauapebas e Canaã dos Carajás nasceram do fluxo migratório. No nordeste do estado, municípios como Castanhal e Capanema também foram erguidos por nordestinos que chegaram para trabalhar.
E há símbolos que contam essa trajetória: Paragominas, no sudeste do Pará, carrega no próprio nome a síntese dessa mistura – Pará, Goiás e Minas. A cidade surgiu com a abertura da Belém-Brasília, rodovia que escancarou as portas da Amazônia para brasileiros de todos os cantos.
Mas a migração para o Pará não foi apenas interna. Portugueses, japoneses, libaneses, espanhóis e outros imigrantes estrangeiros também fincaram raízes aqui, trazendo saberes, culinárias e tradições que hoje fazem parte da identidade paraense.
Apesar desse passado marcado por deslocamentos e choques culturais, o Pará nunca se tornou um lugar de xenofobia ou intolerância com quem vem de fora. Pelo contrário: somos um estado que respeita a diversidade, porque entendemos que ela está na base da nossa formação. A história paraense é, antes de tudo, a história do encontro – nem sempre pacífico, mas profundamente transformador – entre povos, culturas e modos de vida.



