Em Belém, era comum ver sacas de caroço de açaí acumuladas nas calçadas, especialmente nas áreas periféricas — um verdadeiro problema urbanístico e ambiental. Mas esse resíduo abundante, resultado da cadeia produtiva da fruta favorita dos paraenses, agora se transforma em parte de uma solução climática inovadora.
Com uma produção estimada de 1,7 milhão de toneladas de açaí em 2024, o Pará gera uma enorme massa de caroço — cerca de 80% da fruta — que antes era descartada ou utilizada para aterros improvisados e pudesse levar a explosões por decomposição anaeróbica e emissão de metano.
A empresa PHS da Mata, fundada por Pedro da Mata, recolhe os caroços de até 50 processadores na região metropolitana de Belém, usando uma frota de 30 caminhões e 60 funcionários. Cada tonelada coletada pode ser vendida por cerca de R$ 180.
O diferencial está no destino desse resíduo. Após um processo de secagem e fermentação natural de cerca de três meses, os caroços são enviados para os fornos da Votorantim Cimentos, em Primavera (nordeste paraense), onde substituem até 64% do carvão tradicional, um dos principais combustíveis fósseis utilizados na produção de cimento.
O impacto dessa troca é notável: a cimenteira reduziu sua pegada de carbono em 22%, caindo de 550 kg de CO₂ por tonelada para desempenho ainda melhor em adesão a metas científicas até 2030.
Inspirado nos conhecimentos da Terra Preta da Amazônia, o uso do caroço como biomassa representa um modelo de bioeconomia circular e sustentável. Em outras frentes, o resíduo já foi estudado para usos como bioplásticos, biochar (para sequestro de carbono e condicionamento de solo) e tijolos sustentáveis, valorizando o potencial econômico da região paraense.
E não é só isso: estudos como o da NetZero, vencedor do XPRIZE Carbon Removal, reforçam que o biochar é hoje reconhecido como uma das melhores soluções para retenção de carbono no solo — e o Pará tem potencial para se tornar um protagonista nessa área.



