O debate sobre infraestrutura na Amazônia voltou ao centro das discussões após a suspensão de projetos de concessão de hidrovias como Tapajós, Madeira e Tocantins. Mais uma vez, o roteiro se repete: protestos, judicializações, pressão internacional e, por fim, recuo do poder público.
A pergunta que ecoa nas ruas e nos portos é direta: se não pode hidrovia, não pode asfalto e não pode ferrovia, qual é o caminho para gerar emprego e renda no Norte do país?
O paradoxo amazônico
A Amazônia é estratégica para o Brasil. Por seus rios passa parte relevante da produção de grãos do Centro-Oeste rumo ao mercado internacional. O chamado Arco Norte se consolidou como alternativa logística aos portos do Sudeste, reduzindo custos e distâncias.
Ainda assim, cada tentativa de ampliar ou modernizar essa infraestrutura enfrenta forte resistência. Não se trata de negar o direito dos povos indígenas à consulta ou a necessidade de preservar o meio ambiente — ambos são garantias constitucionais. O problema surge quando o debate se transforma em veto absoluto a qualquer obra.
Se hidrovias são barradas, estradas são questionadas e ferrovias são judicializadas indefinidamente, o Norte permanece isolado, caro e pouco competitivo. E quem paga essa conta não são grandes corporações distantes, mas trabalhadores locais.
Desenvolvimento não é sinônimo de destruição
É possível — e necessário — discutir modelos sustentáveis de infraestrutura. Estudos de impacto ambiental, compensações, fiscalização rigorosa e diálogo com comunidades tradicionais devem ser premissas.
Mas transformar toda proposta em ameaça existencial inviabiliza qualquer planejamento de longo prazo. Enquanto isso, outras regiões do país, já consolidadas em termos logísticos, seguem recebendo investimentos, ampliando parques industriais e gerando empregos.
A contradição é evidente: o Norte é cobrado por preservar, mas encontra obstáculos quando busca estruturar sua própria economia.
Insegurança jurídica afasta investimento
Outro efeito colateral é a insegurança jurídica. Investidores observam projetos anunciados, leilões estruturados e, posteriormente, suspensos por pressão política ou disputas judiciais. O recado que fica é de instabilidade.
Sem previsibilidade, não há capital. Sem capital, não há obra. E sem obra, não há emprego.
Em estados que ainda enfrentam altos índices de informalidade e renda média abaixo da média nacional, a ausência de infraestrutura limita o crescimento de cadeias produtivas, encarece produtos e restringe oportunidades.
Onde estão as alternativas?
Se a proposta é impedir novas hidrovias, quais são as alternativas concretas para dinamizar a economia regional? Turismo em larga escala? Bioeconomia? Indústria de base florestal? Tecnologia? Todos são caminhos possíveis — mas exigem igualmente infraestrutura, energia, conectividade e logística.
Não existe desenvolvimento sem acesso.
A discussão precisa sair do “pode ou não pode” e avançar para “como fazer”. O Norte não pode ser tratado apenas como santuário intocável, ignorando que ali vivem milhões de brasileiros que precisam de trabalho, renda e perspectivas.
Proteger a floresta é essencial. Mas proteger também significa garantir dignidade às pessoas que vivem nela.



