Ministros do Supremo Tribunal Federal ouvidos sob reserva afirmam que a Corte vive um momento delicado. Embora haja um esforço interno para reduzir a exposição e evitar embates públicos, novos episódios têm mantido o STF no centro das controvérsias políticas e institucionais.
A avaliação predominante é de que esse ambiente pode gerar desgaste à imagem do tribunal e, mais do que isso, contaminar decisões relevantes que já foram tomadas ou que ainda estão por vir.
Entre os julgamentos considerados mais sensíveis estão os processos relacionados aos atos de 8 de janeiro, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas em Brasília, além das ações envolvendo o chamado caso das emendas parlamentares e outros temas de grande impacto político.
Segundo relatos, há receio de que essas decisões passem a ser questionadas não apenas sob o ponto de vista jurídico, o que é considerado natural no sistema democrático, mas também quanto à sua legitimidade institucional.
Risco de escalada da crise
Nos bastidores, ministros também apontam o risco de consolidação de uma narrativa de confronto entre o Supremo e outros órgãos do Estado, como a Receita Federal e até mesmo a Polícia Federal.
O entendimento jurídico dentro da Corte é de que uma eventual quebra ilegal de sigilo bancário de investigados na operação que apura o vazamento de dados de ministros e de seus familiares, se confirmada, configura crime e deve ser apurada com rigor.
No âmbito dessa investigação, o ministro Alexandre de Moraes determinou a quebra de sigilo bancário dos investigados. A Polícia Federal cumpriu, na terça-feira (17), quatro mandados de busca e apreensão contra servidores públicos em três estados.
Uso de instrumentos sob crítica
Apesar de não haver divergência interna quanto à gravidade de um eventual vazamento ilegal de informações, ministros reconhecem que o contexto da investigação reacende questionamentos antigos.
Um dos pontos sensíveis é o uso do chamado inquérito das fake news — aberto há anos e frequentemente alvo de críticas — como instrumento para apuração dos fatos. Segundo relatos, o temor é que se fortaleça a percepção de que o Supremo estaria utilizando mecanismos próprios para tratar de questões que envolvem seus integrantes.
Essa leitura poderia alimentar críticas de que a Corte estaria atuando em causa própria, o que ampliaria o desgaste institucional.
Esforço para reduzir exposição
Dentro do STF, o diagnóstico é de que há necessidade de diminuir o nível de confronto público e institucional. No entanto, ministros admitem que o tribunal tem sido “arrastado” novamente para o centro da crise a cada novo desdobramento.
O principal alerta, segundo interlocutores, é evitar que o ambiente de tensão comprometa a confiança nas decisões da Corte — especialmente aquelas com impacto direto no cenário político e institucional do país.
Enquanto investigações avançam e novos episódios surgem, o desafio do Supremo será equilibrar a atuação firme no cumprimento da Constituição com a preservação de sua legitimidade perante a sociedade.



