Moradores de vários bairros de Marituba, na Região Metropolitana de Belém, tiveram suas casas invadidas pela água na última sexta-feira (20), após horas de chuva intensa. A gestão municipal atribuiu os transtornos ao alto volume de precipitação e informou que cerca de 250 casas foram afetadas. Diante do cenário, foi decretado estado de emergência.
Mas os números mostram que a situação não pode ser explicada apenas pela chuva.
Segundo o painel do saneamento do Instituto Trata Brasil, o município enfrenta um cenário crítico: dos 118.998 habitantes, apenas 57,1% têm acesso à água, enquanto 87% da população vive sem coleta de esgoto. Os dados são do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) de 2024.
Na prática, isso significa que a maioria dos moradores convive com infraestrutura precária, o que potencializa os impactos de eventos climáticos e transforma chuvas intensas em crises recorrentes.
Falta de prioridade no planejamento
Apesar da gravidade, o saneamento básico não aparece como prioridade clara no planejamento do município. Na Lei de Diretrizes Orçamentárias, o tema surge de forma genérica, sem metas definidas, indicadores ou garantia de recursos mínimos.
Embora haja menção a monitoramento, não existem objetivos concretos, como ampliação da rede de água ou esgoto. O resultado é um planejamento que reconhece o problema, mas não estabelece caminhos efetivos para solucioná-lo.
Investimento baixo e pouco transparente
A fragilidade também aparece na execução financeira. Dados do Trata Brasil indicam que, em 2021, o investimento total em saneamento foi de apenas R$ 18,9 mil — cerca de R$ 0,14 por habitante.
Já em 2025, a prefeitura informou investimento de R$ 11,4 milhões em áreas como infraestrutura e desenvolvimento urbano. No entanto, sem uma rubrica específica para saneamento, não é possível identificar quanto desse valor foi, de fato, destinado à ampliação dos serviços básicos.
Na prática, o orçamento existe, mas não permite rastrear com clareza o investimento no setor.
Dependência externa e falta de protagonismo
Outro ponto crítico é a transferência de responsabilidade. Grande parte das obras estruturais tem sido atribuída ao governo do Estado e a modelos de concessão, reduzindo o protagonismo do município na definição de prioridades.
Plano que não sai do papel
Em 2023, a Prefeitura contratou uma empresa por R$ 480 mil para atualizar o Plano Municipal de Saneamento Básico. No entanto, não há registro público acessível do resultado final.
O plano anterior, de 2019, já apontava falhas graves, como a ausência de dados organizados sobre água, esgoto e drenagem. Embora tenha estabelecido metas de longo prazo, priorizou ações mais administrativas no curto prazo.
Seis anos depois, os indicadores mostram pouca evolução. A dificuldade em transformar planejamento em ação concreta mantém o saneamento como promessa.
Enquanto isso, a população segue convivendo com alagamentos frequentes, esgoto a céu aberto e a sensação de que, em Marituba, cada chuva forte já nasce como um problema anunciado.



