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Manaus: a capital das favelas no coração da floresta

Com mais da metade da população vivendo em assentamentos precários, cidade enfrenta contradições entre riqueza, abandono e invisibilidade urbana

Manaus é, ao mesmo tempo, a quinta cidade mais rica do Brasil e possui uma das maiores proporção de população vivendo em favelas — 56% de seus mais de 2 milhões de habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE. Encravada no meio da maior floresta tropical do planeta, a cidade enfrenta uma crise urbana silenciosa, marcada pela ausência do Estado, degradação ambiental e exclusão social.

O dado é chocante: mais da metade da população de Manaus vive em favelas, em áreas com insegurança jurídica da posse, infraestrutura precária e serviços públicos ausentes ou incompletos. É a terceira maior população em assentamentos precários do país, atrás apenas do Rio de Janeiro e São Paulo — cidades com quase o triplo de habitantes.

Esse retrato se reflete na geografia da capital do Amazonas, onde as áreas de vulnerabilidade se espalham pelos fundos de vales, nas margens dos igarapés poluídos, e em bairros como Cidade de Deus, Jorge Teixeira e São Lucas, onde milhares de famílias constroem suas vidas à margem de políticas públicas efetivas.

Manaus é a maior metrópole em área tropical do mundo, mas não parece uma cidade amazônica”, comenta o geógrafo Marcos Castro de Lima, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). “Seus igarapés estão mortos, os bairros pobres são empurrados para as áreas mais frágeis, e falta arborização — é a segunda capital menos arborizada do país, mesmo estando no coração da floresta.”

Contradições de uma cidade que cresceu sem planejamento

A expansão de Manaus ocorreu, sobretudo, com o crescimento desordenado impulsionado pelo Polo Industrial da Zona Franca. A cidade atraiu populações do interior do Amazonas, de Estados vizinhos e até de outros países, como a Venezuela, em busca de acesso a serviços de saúde, educação e trabalho. Sem políticas habitacionais à altura, essas populações se instalaram onde havia espaço — mesmo que em encostas, fundos de vale ou áreas alagáveis.

Os maiores exemplos dessa realidade estão nas favelas que ocupam o topo do ranking nacional. Das 20 maiores comunidades urbanas do Brasil, cinco estão em Manaus, incluindo a Cidade de Deus e a Comunidade São Lucas, que abrigam mais de 100 mil pessoas somadas. Veja a tabela:

PosiçãoFavela / ComunidadePopulação
1Rocinha (RJ)72.021
2Sol Nascente (DF)70.908
3Paraisópolis (SP)58.527
4Cidade de Deus (AM)55.821
5Rio das Pedras (RJ)55.653
6Heliópolis (SP)55.583
7Comunidade São Lucas (AM)53.674
8Coroadinho (MA)51.050
9Baixadas da Estrada Nova / Jurunas (PA)43.105
10Beiru (BA)38.871
11Pernambués (BA)35.110
12Zumbi dos Palmares (AM)34.706
13Santa Etelvina (AM)33.031
14Baixada da Condor (PA)31.321
15Colônia Terra Nova (AM)30.142
16Jacarezinho (RJ)29.766
17Vila São Pedro (SP)28.466
18Cidade Olímpica (MA)27.326
19Chafik (SP)26.835
20Grande Vitória (AM)26.733
Maiores favelas do Brasil. Dados: IBGE (2022)

Na Cidade de Deus, ruas estreitas, ausência de calçadas, esgoto a céu aberto e construções precárias convivem com academias, supermercados e lava-rápidos. Em muitos pontos, as casas se espremem entre encostas e igarapés — como o do Mindu, hoje um “rio zumbi”, segundo o professor Castro, pelo grau de poluição e abandono.

Uma cidade que nega sua própria realidade

Apesar do diagnóstico técnico do IBGE, muitos moradores relutam em aceitar o rótulo de “favela”. A recusa, no entanto, revela mais do que orgulho: expõe uma sociedade que se acostumou a conviver com a precariedade. “É difícil reconhecer que se vive em uma favela quando esse é o único tipo de cidade que se conhece”, explica Milena Costa, mestranda da UFAM e ex-moradora da Comunidade São Lucas.

Ela é neta de Maria Adelaide Costa, de 79 anos, uma das primeiras moradoras da comunidade. Dona Maria chegou a Manaus em 1990, fugindo da falta de hospitais em Coari, no interior. Ergueu sua casa com as próprias mãos, sem água, energia ou saneamento. “No começo, a luz vinha de gato e a água a gente buscava em balde”, lembra.

Hoje, as ruas continuam sem pavimentação adequada, e o igarapé, que antes abrigava peixes e tartarugas, virou esgoto. “É comum sonhar com o passado, com o tempo em que a gente podia brincar na beira do rio”, diz a idosa.


Favelização e negligência

Para o professor Castro, a situação de Manaus é o resultado de décadas de abandono do planejamento urbano e de políticas públicas descontinuadas. “A cidade cresceu ao redor da informalidade. O Estado sempre chegou atrasado, quando chega”, avalia. Ele cita programas como o Prosamim, que tenta urbanizar trechos próximos aos igarapés, mas que avança lentamente e de forma pontual.

Essa negligência se transforma em tragédia, como no emblemático caso de 2011, quando o então prefeito Amazonino Mendes respondeu a uma moradora de área de risco com a frase: “Então morra, morra.” A resposta simboliza o tipo de tratamento reservado às populações periféricas na capital.


A capital invisível da Amazônia

O cenário das favelas de Manaus revela muito mais do que desigualdade urbana: revela a contradição de uma cidade rica que vira as costas para sua própria população e para a floresta. A ausência de políticas públicas sustentáveis, a negação da identidade amazônica e a favelização crescente mostram uma capital que precisa urgentemente ser olhada, compreendida e respeitada em sua complexidade.

Manaus é a capital da floresta. Mas também é, hoje, a capital das favelas.

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