O Brasil volta a assistir a um debate que, embora apresentado como ambiental, também revela profundas contradições políticas e regionais. Enquanto o estado de São Paulo executa uma grande intervenção no Rio Tietê para ampliar a Hidrovia Tietê-Paraná, projetos semelhantes na Amazônia enfrentam resistência intensa de organizações ambientais e setores políticos — inclusive de parlamentares do próprio Sudeste.
No interior paulista, o governo estadual conduz obras de ampliação do canal de Nova Avanhandava, entre os municípios de Buritama e Brejo Alegre. O projeto prevê escavação e derrocamento de rochas em cerca de 16 quilômetros de canal, com remoção de mais de 553 mil metros cúbicos de material para aumentar a profundidade e a navegabilidade. O investimento total estimado é de R$ 315 milhões e cerca de 78% das obras já foram executadas.
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A intervenção deve triplicar a capacidade de transporte da hidrovia, passando de 2,5 milhões para até 7 milhões de toneladas por ano. Trata-se de uma obra estratégica para o escoamento de cargas rumo ao Porto de Santos, principal corredor de exportação do país.
Até aqui, tudo dentro da lógica de infraestrutura de um país continental. O transporte hidroviário é reconhecido mundialmente como um dos modais mais eficientes e com menor emissão de carbono.
A contradição aparece quando se observa o que ocorre na Amazônia.
Recentemente, o governo federal decidiu rever o processo de concessão de hidrovias importantes da região, incluindo trechos ligados ao Rio Tapajós, ao Rio Madeira e ao Rio Tocantins. A decisão ocorreu após mobilizações de organizações socioambientais e protestos políticos.
Entre os parlamentares que celebraram o recuo esteve a deputada federal Sâmia Bomfim, do PSOL de São Paulo. O partido também teve presença ativa em mobilizações contra projetos logísticos na região amazônica. Lideranças como Guilherme Boulos participaram de atos e manifestações relacionados ao tema.
A questão que emerge desse cenário não é negar a importância do debate ambiental. A Amazônia exige, de fato, cautela, estudos técnicos rigorosos e respeito às populações tradicionais. O ponto central é outro: por que obras de grande impacto em rios do Sudeste avançam com relativa normalidade, enquanto projetos semelhantes na região Norte se transformam em batalhas políticas e judiciais quase permanentes?
O debate torna-se ainda mais sensível quando se observa o peso estratégico das hidrovias amazônicas. Corredores fluviais como o do Tapajós fazem parte do chamado “Arco Norte”, rota logística que vem ganhando importância no escoamento de grãos do Centro-Oeste. Esses projetos poderiam reduzir custos logísticos, diminuir a pressão sobre rodovias e ampliar a competitividade do país no comércio internacional.
Paralisar ou adiar essas iniciativas tem efeitos que vão além do debate ambiental: afeta investimentos, empregos e a própria integração econômica da região.
Outro elemento que chama atenção é o silêncio ou a baixa articulação política de parte da bancada do Pará no debate nacional. Enquanto parlamentares de outras regiões ocupam espaço na discussão, representantes do próprio estado têm sido cobrados por maior protagonismo na defesa de projetos estruturantes para a região.
A pergunta que permanece no ar é simples, mas incômoda: se ampliar hidrovias é considerado solução logística e ambientalmente eficiente em São Paulo, por que a mesma lógica não pode ser discutida com equilíbrio quando se trata da Amazônia?
O desafio brasileiro não está em escolher entre desenvolvimento e preservação. O verdadeiro desafio é construir políticas públicas que conciliem ambos — sem aplicar pesos e medidas diferentes dependendo da região do país.



