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Fernando Meirelles lança “Pssica”, série que denuncia o tráfico sexual de menores no Pará

Adaptação do livro de Edyr Augusto, minissérie da Netflix dirigida por Fernando e Quico Meirelles mostra a violência urbana e fluvial da Amazônia, com foco na exploração de adolescentes levadas para a prostituição fora do país.

A umidade sufocante de mais de 30ºC, os barcos enfileirados como labirintos e os corpos em movimento frenético marcam o ambiente de “Pssica”, nova minissérie brasileira da Netflix que estreia esta semana. Dirigida por Fernando Meirelles, de Cidade de Deus, e por seu filho Quico Meirelles, a produção adapta o livro homônimo do escritor paraense Edyr Augusto e mergulha no universo da criminalidade urbana e fluvial de Belém.

Gravada em 2024 nas ruas, becos e rios da capital paraense, a série se propõe a retratar, com autenticidade, a dura realidade amazônica marcada por violência, pirataria fluvial e tráfico humano. “Filmamos em um calor de 33ºC, com a equipe vivendo o mesmo ambiente dos personagens. Isso dá verdade à obra”, disse Fernando, lembrando que conheceu o livro de Edyr quando esteve em Belém para dirigir a ópera Os Pescadores de Pérolas.

Um olhar da Amazônia para o mundo

“Pssica” significa “azar” ou “maldição” na gíria local, e a narrativa acompanha três personagens cujas vidas são entrelaçadas pelo crime.

Mariangel, interpretada pela colombiana Marleyda Soto (Cem Anos de Solidão), busca vingança após ver o marido e o filho serem mortos por piratas fluviais — conhecidos como “ratos d’água” — que atacam embarcações em busca de mercadorias. Preá, vivido por Lucas Galvino, é um jovem que cresceu cercado pelo crime e acabou absorvido por ele.

A trama mais sensível, porém, é a de Janalice, adolescente de 15 anos interpretada por Domithila Cattete. Depois que um vídeo íntimo seu é espalhado entre colegas, ela se muda para a casa da tia em Belém. Ingênua e sem a malícia da cidade grande, acaba sequestrada por uma rede de tráfico sexual que leva menores do Pará para serem exploradas do outro lado da fronteira, na Guiana Francesa.

Violência real, mas suavizada na tela

A exploração sexual de crianças e adolescentes é um tema crônico no Pará, especialmente em regiões como a Ilha do Marajó, já retratada em produções como a série Manas. Em “Pssica”, a violência está presente, mas não de forma gráfica.

“Demos uma suavizada. Você pode dividir a violência do livro por oito”, explica Fernando. “Não queríamos uma série insuportável de ver. Indicamos, sugerimos, mencionamos, mas evitamos a exposição crua. A ideia é provocar reflexão, não afastar o espectador.”

Quico, responsável pela condução estética, reforça que a narrativa busca reproduzir o ritmo intenso da escrita de Edyr Augusto. “O livro é uma vertigem, você não consegue parar de ler. Criamos enquadramentos diferentes para cada personagem, jogando com sensações. Janalice, por exemplo, aparece em planos fechados, que traduzem a prisão em que vive. Já os ratos d’água surgem em tomadas abertas, reforçando a liberdade e o domínio sobre os rios.”

A parceria entre pai e filho

“Pssica” marca a primeira experiência de direção conjunta entre Fernando e Quico Meirelles. Apesar do peso do sobrenome, a relação no set foi marcada por cumplicidade e hierarquia invertida.

“Quando eu não tenho o que fazer, pego uma camerazinha e fico buscando ângulos interessantes, porque comecei como operador de câmera. Mas o Quico é o chefe e eu obedeço. À noite, em casa, ele cozinha e depois eu lavo a louça”, brinca Fernando.

A convivência no set, segundo os dois, foi intensa, mas produtiva. Entre pausas e reidratação à base de água e pedaços de abacaxi — “a verdadeira estrela das gravações”, como relatam —, a equipe enfrentou o calor e a logística complexa das filmagens sobre lanchas e catamarãs.

Um lançamento em sintonia com o debate atual

Embora as gravações tenham ocorrido em agosto de 2024, a estreia de “Pssica” acontece em meio a um momento sensível no país: o debate nacional sobre a adultização de crianças e a violência sexual contra adolescentes, reacendido após um vídeo do influenciador Felca viralizar nas redes.

A série chega, portanto, como uma obra de ficção que dialoga diretamente com uma realidade urgente, revelando o que acontece longe dos grandes centros e chamando atenção para problemas sociais que atravessam a Amazônia urbana.

“Não glamorizamos a violência, mas mostramos como ela atinge corpos, vidas e destinos. É uma série forte, necessária e profundamente tocante”, resume Fernando Meirelles.

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