A repercussão da tragédia familiar registrada em Itumbiara, no interior de Goiás, ultrapassou o impacto do crime em si e ganhou novo capítulo nas redes sociais. Em meio a manifestações de luto e indignação, parte dos comentários publicados em portais e plataformas digitais passou a responsabilizar a mãe das crianças pela violência cometida pelo pai.
As mensagens sugeriam que o comportamento da mulher — como um suposto relacionamento extraconjugal ou a ausência dela no momento do crime — teria contribuído para o ocorrido. Para especialistas ouvidas pela reportagem, esse deslocamento de culpa revela um padrão recorrente de responsabilização feminina em casos de violência doméstica e familiar.
Lógica histórica de culpabilização
A advogada criminalista e feminista Kelly Cristina, presidente da Articulação de Mulheres Brasileiras, afirma que a reação não é pontual, mas resultado de uma construção histórica.
“É uma constante. Faz parte da lógica do patriarcado responsabilizar as mulheres, mesmo quando elas são vítimas diretas. Há séculos a sociedade transfere a culpa da violência masculina para o comportamento feminino”, avalia.
Segundo ela, comentários como “onde estava a mãe?” ou “ela provocou a situação” repetem uma narrativa que relativiza o agressor e mantém estruturas desiguais de poder. “Retira-se a responsabilidade de quem praticou a violência para colocá-la na mulher. Isso preserva o sistema como está”, afirma.
Maternidade como obrigação exclusiva
Especialistas apontam que a maternidade ainda é tratada socialmente como responsabilidade absoluta da mulher. Mesmo quando há dois responsáveis legais, a cobrança recai quase sempre sobre a mãe.
Esse entendimento está ligado ao chamado trabalho reprodutivo — cuidado com filhos, tarefas domésticas e gestão emocional da família — historicamente atribuído às mulheres e naturalizado como “amor”, apesar de seu peso econômico e social.
“Chamam de amor o que é trabalho não pago”, diz Kelly, ao lembrar que esse conjunto de atividades pode representar parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB), embora permaneça invisível.
Violência vicária e punição simbólica
Para Tatiana Machiavelli, professora de Psicologia Social da Universidade Federal de Catalão, a cobrança excessiva sobre mulheres faz parte de uma engrenagem cultural mais ampla.
“As mulheres que não correspondem ao papel tradicional de cuidado acabam desqualificadas, humilhadas e culpabilizadas socialmente”, explica.
Ela chama atenção ainda para a chamada violência vicária — quando o agressor atinge filhos ou familiares com o objetivo de punir emocionalmente a mulher. “O alvo final é a mãe. A agressão busca destruir algo que é precioso para ela”, afirma.
Masculinidade e repressão emocional
A análise também envolve a construção social da masculinidade. Segundo Kelly, muitos homens são educados para reprimir emoções e evitar demonstrações de fragilidade, o que pode dificultar a elaboração de frustrações e conflitos afetivos.
“O patriarcado é violento com as mulheres, mas também produz homens que não aprendem a lidar com perdas e rejeições”, diz.
Para as especialistas, compreender esses fatores estruturais é essencial para evitar leituras simplistas e impedir que o debate público reproduza estigmas ou revitimize mulheres em situações já marcadas por violência.
Papel das redes sociais
A dinâmica das redes sociais, com reações rápidas e pouco contextualizadas, tende a potencializar julgamentos morais e narrativas superficiais. Na busca por explicações imediatas, usuários frequentemente elegem culpados secundários — muitas vezes, as próprias vítimas indiretas.
Para as pesquisadoras, o desafio é ampliar o debate com informação qualificada e responsabilização correta dos autores da violência.



