A gente se sente de volta ao período colonial quando lê certas coisas.
A escritora Giovana Madalosso, colunista da Folha de S. Paulo, publicou um texto em que diz estar “doida para ir para o motel” ao falar sobre a COP30, evento climático de escala global que será sediado em Belém, no Pará. O problema não é só o título — é o tom inteiro da coluna, que mistura ironia, desprezo e um olhar completamente deslocado da realidade que se propõe a abordar.
Giovana nunca veio a Belém. Ela não conhece a cidade, a cultura, os desafios e tampouco o que significa, para o Brasil e para o mundo, a COP acontecer na Amazônia. Mesmo assim, decidiu escrever como se fosse íntima. E fez isso zombando. Riu da hospedagem, dos barcos, das possibilidades locais — tudo tratado como algo estranho, exótico, ultrapassado. Um zoológico tropical em que ela talvez precise se “aventurar”.
É o mesmo roteiro de sempre: o olhar do Sudeste sobre o Norte como se estivesse escrevendo sobre um território estrangeiro, ou pior, atrasado. O texto soa como se viesse de um tempo em que o Brasil era dividido entre quem mandava e quem obedecia, entre quem sabia e quem deveria se calar.
E não se trata apenas de uma coluna ruim. Trata-se de uma repetição de padrões históricos. O Norte segue sendo alvo de caricatura, de exotização, de piada pronta. E isso diz muito sobre quem tem o microfone na mão. Quando uma jornalista — branca, do Sul, publicada em um dos maiores jornais do país — se permite esse tipo de abordagem, ela dá o recado de que ainda é aceitável rir do que não se conhece.
Não é a primeira vez que isso acontece, e, infelizmente, não será a última. Com a aproximação da COP30, já está claro que teremos que lidar com muitos “casos isolados” como esse. O evento, que deveria ser uma oportunidade de valorizar a Amazônia, de dar voz à ciência, às populações tradicionais e aos debates sérios sobre o clima, corre o risco de ser reduzido a piadas e estereótipos por quem nunca se importou em entender a região.
E que fique claro: ninguém está pedindo que a cidade ou o evento sejam poupados de crítica. Belém, como qualquer capital brasileira, tem seus desafios e precisa melhorar em muitos aspectos — inclusive na sua estrutura para receber um evento desse porte. Mas uma coisa é crítica construtiva. Outra, muito diferente, é o escárnio gratuito, o deboche raso, a piada sobre o que não se conhece.
Esse tipo de discurso não contribui em nada. Pelo contrário: reforça ideias antigas de que o Norte é inferior, que está sempre “correndo atrás”, que não merece protagonismo. E isso precisa ser combatido. Já passou da hora de parar de rir de uma região inteira só porque ela está fora do eixo Rio-São Paulo.
A Folha de S. Paulo, vale lembrar, é o mesmo jornal que apoiou a ditadura militar de 1964 e que carrega, até hoje, o ranço de uma elite que fala para si mesma. A publicação da coluna de Giovana Madalosso apenas confirma que esse elitismo, disfarçado de crônica moderna, continua vivo.
O que nos resta, então, é não aceitar mais calados. É responder. É apontar que esse tipo de texto, que zomba, distorce e inferioriza, não é inofensivo — é prejudicial. E que bater palma para esse tipo de olhar colonizador é andar para trás.
O Norte sabe o que tem. O Brasil é maior do que o eixo que escreve as colunas. E a COP30 vai acontecer com ou sem a compreensão de quem ainda trata a Amazônia como um ponto turístico exótico.



