NOTÍCIASOPINIÃOParáREGIONAL

Entre o veto e o progresso: a resistência a investimentos que trava o desenvolvimento do Pará

O Pará convive há anos com um paradoxo difícil de ignorar. Enquanto ostenta um dos maiores potenciais econômicos do país — em recursos naturais, logística e localização estratégica —, segue acumulando indicadores sociais frágeis, desemprego elevado e perda populacional. No papel, sobra vocação para crescer. Na prática, faltam oportunidades.

Parte dessa contradição passa pela dificuldade histórica de viabilizar grandes investimentos no estado.

Há poucos meses, uma empresa desistiu de instalar um porto em Abaetetuba após enfrentar sucessivas resistências e entraves jurídicos. O empreendimento prometia movimentar a economia da cidade, gerar empregos formais e estruturar uma cadeia logística em um dos municípios mais pobres do Pará, onde a informalidade ainda domina o mercado de trabalho. Depois de anos de tentativas, o investimento milionário foi transferido para o Sul do país.

O caso não é isolado.

Projetos de infraestrutura — portos, hidrovias, terminais, estradas ou polos industriais — frequentemente encontram forte oposição de movimentos organizados, entidades civis e, em muitos casos, ações do Ministério Público. Trata-se de um direito legítimo: questionar impactos sociais e ambientais faz parte do processo democrático. O problema surge quando a contestação se transforma em bloqueio permanente, sem espaço para diálogo, compensações ou soluções técnicas.

Em Santarém, por exemplo, a dragagem do Rio Tapajós, considerada estratégica para melhorar o escoamento de grãos a partir de Miritituba, também enfrenta resistências. Povos indígenas e movimentos sociais manifestam preocupações válidas sobre os impactos ambientais e culturais. Essas vozes precisam ser ouvidas. Mas a discussão não pode ignorar o restante da população que depende de emprego, renda e dinamização econômica.

A pergunta que raramente aparece no debate é simples: quem fala pela maioria silenciosa que quer trabalhar?

Enquanto projetos são judicializados ou adiados indefinidamente, o Pará continua exportando gente. O Censo de 2022 mostrou que a região Norte passou a perder população para outros estados. São milhares de paraenses que deixam suas cidades rumo ao Centro-Oeste e ao Sul, atraídos por mercados mais dinâmicos. Muitos enfrentam preconceito longe de casa, mas ainda assim preferem migrar a permanecer sem perspectivas.

O contraste com outras regiões é evidente. No Nordeste, por exemplo, novos investimentos públicos ou privados costumam ser recebidos como oportunidades de desenvolvimento, mesmo por grupos ideologicamente críticos ao modelo econômico. Aqui, frequentemente prevalece a lógica da suspeita automática: todo projeto é visto como ameaça.

O resultado é previsível: insegurança jurídica, fuga de capital e estagnação produtiva.

Sem atividade econômica consistente, cidades inteiras passam a depender quase exclusivamente de repasses públicos, empregos temporários em prefeituras ou benefícios sociais. Cadeias produtivas enfraquecem, como ocorre em áreas tradicionais do dendê na região do Acará. A falta de alternativas reduz o horizonte de gerações inteiras.

Defender investimentos, no entanto, não significa ignorar direitos de povos tradicionais ou flexibilizar a proteção ambiental. Órgãos fiscalizadores são essenciais e devem garantir consulta, mitigação de impactos e compensações justas. Desenvolvimento não pode ser sinônimo de atropelo.

Mas também não pode ser sinônimo de paralisia.

O desafio está no equilíbrio: regular, exigir responsabilidade e transparência — sem transformar cada projeto em uma batalha interminável. Se o estado não conseguir construir esse meio-termo, continuará assistindo a seus jovens partirem e a oportunidades irem embora junto com eles.

O Pará não pode escolher entre preservar ou crescer. Precisa aprender, com urgência, a fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Etiquetas

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo
Fechar