O vídeo da deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) celebrando o recuo do governo federal na concessão das hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins reacendeu um debate sensível para a Região Norte: afinal, qual o limite entre preservação ambiental, direitos indígenas e a necessidade de infraestrutura para o desenvolvimento amazônico?
O governo federal decidiu rever o processo de concessão após mobilizações de organizações indígenas e entidades socioambientais. Para setores ligados ao agronegócio e à logística, a medida representa um freio bilionário em investimentos e a postergação de milhares de empregos diretos e indiretos. Para ambientalistas, trata-se de uma vitória da proteção territorial e do respeito à consulta prévia às comunidades impactadas.
O que chama atenção no episódio, contudo, é a dimensão política da reação. Parlamentares de estados do Sudeste, especialmente de São Paulo — o mais rico e estruturado do país — assumem protagonismo em pautas que impactam diretamente o Norte. A deputada paulista celebrou o recuo como uma conquista socioambiental. Já lideranças empresariais da região avaliam que a decisão amplia a insegurança jurídica e reforça a percepção de que grandes projetos logísticos na Amazônia enfrentam obstáculos quase intransponíveis.
O peso estratégico do Arco Norte
As hidrovias do Tapajós, Madeira e Tocantins integram o chamado “Arco Norte”, corredor logístico que vem ganhando relevância no escoamento de grãos do Centro-Oeste. A ampliação e modernização dessas rotas fluviais são vistas por setores produtivos como alternativa para reduzir custos, diminuir a dependência dos portos do Sudeste e tornar o Brasil mais competitivo no mercado internacional.
A suspensão ou indefinição desses projetos, segundo analistas do setor, pode desestimular investidores privados e comprometer planejamentos logísticos de longo prazo. Em uma região historicamente marcada por déficits de infraestrutura, cada projeto cancelado ou adiado ganha peso simbólico e econômico.
Representatividade em xeque
Outro ponto que emerge da controvérsia é o papel da bancada federal do Pará. Críticos afirmam que faltou articulação política mais robusta para defender os interesses regionais no debate nacional. Enquanto vozes de fora do Norte ocupam espaço nas redes e na imprensa, parlamentares paraenses têm sido cobrados por maior protagonismo e capacidade de mediação entre desenvolvimento econômico e salvaguardas socioambientais.
A ausência de posicionamento firme pode reforçar a percepção de que decisões estratégicas sobre a Amazônia continuam sendo tomadas, majoritariamente, fora dela.
Entre o impasse e a construção de consensos
É inegável que projetos dessa magnitude exigem diálogo amplo, estudos técnicos sólidos e respeito às populações tradicionais. Também é fato que a Região Norte enfrenta desafios históricos de pobreza, baixa industrialização e carência de infraestrutura básica.
O dilema não é simples: como conciliar proteção ambiental, direitos indígenas e geração de emprego e renda? O debate não pode se reduzir a uma disputa ideológica entre “desenvolvimentistas” e “ambientalistas”, tampouco a uma guerra regional entre Norte e Sudeste.
Se o Brasil deseja um projeto consistente para a Amazônia, será necessário superar decisões pontuais movidas por pressão circunstancial e investir em planejamento de longo prazo, segurança jurídica e participação efetiva das comunidades locais.
O que está em jogo não é apenas uma concessão de hidrovia, mas o modelo de desenvolvimento que o país pretende adotar para a região amazônica — e quem terá voz decisiva nesse processo.



