No apagar das luzes de 2025, Belém perdeu mais um capítulo de sua história urbana. Um casarão histórico localizado no cruzamento da avenida Senador Lemos com a travessa Dom Romualdo de Seixas, no bairro do Umarizal, foi demolido no dia 31 de dezembro, apesar de tentativas de intervenção por parte de órgãos públicos.
Equipes do Ministério Público, da Secretaria Municipal de Cultura e da Polícia Civil chegaram a ser acionadas, mas quando a ordem de suspensão foi emitida, a edificação já se encontrava praticamente no chão. A ação foi executada por operários e máquinas, encerrando definitivamente a existência de um imóvel que remontava ao final do século XIX ou início do século XX.
O casarão fazia parte do conjunto arquitetônico erguido durante o período da Belle Époque da borracha, fase de grande prosperidade econômica de Belém. A construção apresentava características típicas da época, como grandes janelões, pisos de madeira e azulejos portugueses na fachada. O imóvel foi residência da família Bisi e, ao longo das décadas, passou por sucessivos períodos de abandono.
Embora a demolição tenha causado indignação entre arquitetos, urbanistas e defensores do patrimônio, o episódio não foi amplamente divulgado. Proprietários do imóvel, segundo relatos, tentavam há anos obter autorização para a derrubada da construção.
Processo de destombamento
O caso revela um processo administrativo controverso. Durante a gestão do então prefeito Duciomar Costa, o Departamento do Patrimônio Histórico da Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel) emitiu parecer favorável ao tombamento do conjunto arquitetônico. À época, o então presidente da Fumbel, Fábio Atanásio, referendou o parecer, com apoio do Conselho Municipal do Patrimônio, dando prosseguimento à proteção legal do bem.
Posteriormente, os proprietários ingressaram com recursos administrativos e judiciais solicitando revisão do tombamento. Não há informações públicas claras sobre como o parecer técnico inicial foi cassado. O fato é que, já com outra composição, o próprio Conselho do Patrimônio de Belém aprovou resolução revertendo o entendimento anterior.
A reviravolta culminou no destombamento oficial do imóvel, formalizado por meio do Decreto nº 109.034/2023, assinado pelo prefeito Edmilson Rodrigues em 27 de dezembro de 2023. Com a retirada da proteção legal, o casarão ficou vulnerável e acabou demolido exatamente dois anos depois, no último dia de 2025.
A destruição do imóvel é apontada por especialistas como mais um exemplo da perda sistemática da identidade histórica de Belém, cidade que já viu dezenas de casarões e conjuntos arquitetônicos desaparecerem nas últimas décadas, muitas vezes sem debate público ou alternativas de reuso.
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