Brasileiros são latinos ou não? Entenda por que a identidade do Brasil na América Latina ainda gera debate
Origem histórica do termo, influência política da França e classificação adotada pelos Estados Unidos ajudam a explicar por que o tema divide opiniões dentro e fora do país
Uma discussão recorrente nas redes sociais voltou a ganhar força: afinal, os brasileiros são ou não latinos? A polêmica ressurgiu após uma usuária norte-americana afirmar que o Brasil não faria parte da América Latina por ser o único país do continente cuja língua oficial é o português. A publicação gerou milhares de respostas e reabriu um debate que envolve história, política, cultura e identidade.
Embora geograficamente localizado na América Latina, o Brasil nem sempre se reconhece dessa forma. Pesquisas indicam que a maioria da população prefere se identificar apenas como brasileira, sem adotar o rótulo latino-americano. Especialistas apontam que essa percepção tem raízes históricas e diferenças na forma como o conceito foi construído ao longo do tempo.
Origem política do termo
A expressão “América Latina” não surgiu apenas como uma referência cultural ou linguística. O conceito ganhou força no século 19, durante o governo do imperador francês Napoleão III, que defendia a aproximação entre países de línguas de origem latina — como francês, espanhol e português — para ampliar a influência da França no continente americano e conter o avanço dos Estados Unidos.
A estratégia fazia parte de um projeto geopolítico e chegou a incluir a invasão do México, em 1862. Apesar do fracasso militar, o termo “latino” permaneceu e, ao longo do século 20, foi ressignificado como símbolo de união cultural e política entre os países da região.
Identidade brasileira distante
No Brasil, no entanto, a noção de pertencimento latino nunca se consolidou amplamente. Levantamento do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) mostra que apenas 4% dos brasileiros se definem como latino-americanos, enquanto 83% afirmam se identificar exclusivamente como brasileiros.
Para o professor Feliciano de Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), o país construiu uma identidade própria e pouco conectada aos vizinhos hispano-falantes.
Segundo ele, diferentemente de outras nações da região, que compartilham idioma e processos históricos semelhantes, o Brasil desenvolveu uma percepção de singularidade cultural que enfraqueceu o sentimento de integração latino-americana.
Diferença de classificação nos EUA
A controvérsia também se intensifica quando o debate ocorre fora do país. Nos Estados Unidos, o termo “latino” é utilizado como categoria étnico-racial nas estatísticas oficiais. A definição inclui apenas pessoas de origem ou cultura espanhola, como mexicanos, cubanos e porto-riquenhos.
Por esse critério, brasileiros ficam de fora das classificações de “hispânicos ou latinos”, mesmo sendo sul-americanos. Muitos acabam enquadrados em categorias genéricas, como “outra raça”, o que contribui para a sensação de exclusão do grupo.
Cultura e aproximações
Apesar do distanciamento identitário, especialistas lembram que o Brasil compartilha características históricas e sociais com o restante do continente, como a colonização europeia, a forte presença indígena e africana, desigualdades econômicas e experiências políticas semelhantes.
A aproximação cultural também aparece em momentos simbólicos, como a valorização da música e da produção artística latino-americana. Recentemente, a presença do cantor porto-riquenho Bad Bunny em grandes eventos internacionais reacendeu discussões sobre representatividade e integração regional.
Debate segue aberto
Para pesquisadores, a pergunta “o brasileiro é latino?” não tem resposta única. Do ponto de vista geográfico e linguístico, o país integra a América Latina. Já no campo da identidade, a percepção varia conforme contexto histórico, social e político.
Enquanto parte da população defende a singularidade brasileira, outros enxergam a latinidade como elemento de conexão com os países vizinhos.



