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Ambientalismo de bar: o luxo de opinar sobre a Amazônia sem conhecer a Amazônia

É fácil ser contra o petróleo na Margem Equatorial tomando chope no Leblon. Difícil é encarar a realidade de quem vive entre o Oiapoque e Melgaço.

Ser contra a exploração de petróleo na Margem Equatorial virou moda nos círculos confortáveis do eixo Rio–São Paulo. Entre um chope e outro, muitos “defensores da Amazônia” opinam sobre o que deve ou não acontecer no Norte, como se conhecessem o cheiro do mangue, o calor da várzea ou a luta diária de quem vive no interior do Amapá e do Pará. É fácil ser ambientalista no Leblon — difícil é ser amazônida.

Quem defende, de longe, a proibição total da exploração na Margem Equatorial deveria passar seis meses no Oiapoque e outros seis em Melgaço, o município mais pobre do Brasil. Aí sim, talvez entendesse que o debate sobre o petróleo não é feito de slogans e selfies verdes, mas de vidas reais, de famílias que ainda cozinham à lenha, de escolas sem energia e de cidades inteiras sem perspectivas de renda.

Não se trata de ser a favor da destruição ambiental — trata-se de não ignorar a realidade humana da Amazônia. É fácil dizer “não” ao petróleo quando o salário vem todo mês, quando há saneamento, transporte público e acesso à internet. Difícil é olhar nos olhos de quem vive em extrema pobreza e dizer que deve continuar assim em nome de um “ideal” que, na prática, só protege o conforto de quem mora longe.

A Amazônia não precisa de tutores distantes. Precisa de políticas inteligentes, de gente que entenda o território e respeite suas pessoas. Explorar petróleo com responsabilidade ambiental é possível — e negar essa discussão é perpetuar a desigualdade.

Enquanto ambientalistas de bar fazem discursos no Jovi, há milhões de brasileiros esquecidos entre rios e florestas esperando um futuro que nunca chega. O verdadeiro desafio não é salvar a Amazônia de quem vive nela, mas salvá-la da arrogância de quem acha que sabe o que é melhor para ela sem nunca ter pisado aqui.

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