O que a ausência de Dr. Daniel nas manifestações bolsonaristas de 7 de Setembro realmente significa?
Depois de uma longa aproximação com o bolsonarismo, candidato faltou ao desfile de 7 de Setembro e também aos atos da direita que tiveram Flávio Bolsonaro como um dos principais nomes
Dá para dizer que Dr. Daniel é infiel? Partidariamente falando, óbvio. Porque relacionamento, como a política, não vive apenas de conquista. Depois do namoro vem a manutenção e, principalmente, o aceno público de compromisso; sem esquecer daquela obrigação inconveniente de aparecer quando o outro lado está esperando.
Daniel passou meses tentando conquistar o selo de confiança do bolsonarismo. A trajetória não foi exatamente um passeio no parque. Houveram aproximações, recuos, negociações e até a possibilidade de o PL lançar candidatura própria ao Governo do Pará diante da resistência de setores da direita em embarcar de imediato no projeto do ex-prefeito de Ananindeua. Desde 2025 lideranças bolsonaristas mostravam desconforto com a indefinição ideológica de Daniel.
O médico maranhense finalmente trocou o PSB pelo Podemos em março deste ano, a convite de Zequinha Marinho, que apostou em Daniel para disputar o Palácio dos Despachos com o peso e a estrutura da legenda. Na época, o próprio Podemos tratava a filiação como uma articulação estratégica para transformar Daniel em um nome competitivo contra o grupo político dos Barbalho.
A aproximação com o campo bolsonarista também deixou de ser uma insinuação. Em junho, Daniel subiu ao palanque com Flávio Bolsonaro em Belém e recebeu publicamente o apoio do senador. Houve até vaia de uma parcela do público, justamente porque parte dos próprios apoiadores da direita questionava a identificação ideológica do candidato. A imagem, portanto, tinha tudo de simbólica: Daniel tentando convencer uma torcida que ainda precisava ser convencida.
Depois veio a escolha da vice. Ellayne D’Almeida, do PL, deixou a disputa pela Assembleia Legislativa para compor a chapa de Daniel. Engenheira, liderança política de Itaituba e defensora de pautas conservadoras ligadas ao agronegócio, à mineração e ao garimpo, ela chegou à chapa como mais uma ponte entre o candidato e o eleitorado bolsonarista.
A fotografia eleitoral ficou bastante clara: Podemos na cabeça, PL na vice, Flávio Bolsonaro como padrinho nacional e uma campanha construída em torno da promessa de derrotar o grupo Barbalho. A candidatura de Daniel acabou oficializada pelo Podemos com apoio declarado de Flávio e de uma coligação que reúne Podemos, PL, DC, Novo e Federação Renovação Solidária.
Aí chegou o 7 de Setembro…
Flávio Bolsonaro estava na Avenida Paulista, liderando uma manifestação que transformou a Independência em ato político da direita. O evento teve críticas a Lula e a Alexandre de Moraes, defesa de pautas bolsonaristas e pressão por mudanças no Supremo. Segundo estimativa da Reuters, cerca de 28,5 mil pessoas participaram do ato paulista.
E Daniel? Daniel estava no Bengui às 7h30, depois seguiu para Santa Luzia do Pará, Cachoeira do Piriá e Viseu. Na agenda divulgada pela campanha, não havia desfile cívico-militar, manifestação bolsonarista ou qualquer outro evento relacionado ao 7 de Setembro. Hana Ghassan estava na avenida Presidente Vargas acompanhando o desfile; vaiada? Sim, mas estava.
Daniel deixou de acreditar nos próprios aliados ou simplesmente nunca acreditou?
O partido de Zequinha abriu espaço para Daniel disputar o governo. O PL abriu mão de lançar um nome próprio e colocou uma de suas lideranças na vice. Flávio Bolsonaro atravessou o país para declarar apoio ao candidato. Daniel fez o caminho inverso no dia em que seus aliados ideológicos decidiram transformar o 7 de Setembro em demonstração de força.
Nem um “oi”, nem uma selfie, nem um aceno...
No campo bolsonarista, a data era uma oportunidade evidente de demonstrar unidade. Para Daniel, aparentemente, a oportunidade era outra: pegar a estrada, continuar fazendo campanha longe da capital e se desvincular daqueles que lhes deram a mão.
E talvez seja aí que resida a grande dúvida sobre a relação entre Daniel e a direita: quanto desse casamento é ideológico e quanto é puramente eleitoral?
A pergunta não surgiu agora. Ela acompanha a trajetória do candidato desde antes da filiação ao Podemos. Em 2025, setores do PL acusavam Daniel de tentar agradar a gregos e troianos; em março deste ano a estratégia de manter pontes tanto com o PL quanto com setores do centro e da centro-esquerda foi revelada por diversos portais. Pouco depois, veio o palanque com Flávio. Na sequência, o movimento “Lula-Daniel” – proesa de um dos devaneios de Lívia Noronha – apareceu para acrescentar mais uma camada à já bastante movimentada vida partidária do candidato.
É tanta gente na relação que já está difícil saber quem está no grupo da família.
E o problema de relacionamentos políticos é que, diferente de um namoro convencional, as mensagens ficam registradas. A foto no palanque está arquivada. O apoio está gravado. A filiação está no TSE. A vice está na chapa. E as ausências também.
O curioso é que Daniel precisou passar por uma odisséia para convencer o bolsonarismo de que era, sim, uma alternativa viável ao barbalhismo. Agora que conseguiu, começa a enfrentar a etapa mais ingrata de qualquer aliança: provar fidelidade depois da conquista.
Não é preciso imaginar uma ruptura onde ela não foi anunciada. Daniel continua sendo candidato de uma chapa que inclui o PL e continua contando com o apoio de Flávio Bolsonaro. Mas política é feita de símbolos, e o 7 de Setembro entregou um símbolo particularmente ruim para quem depende justamente desse campo político.
Porque, quando a direita chamou a turma para a rua, Daniel não foi. Pode ser estratégia ou simplesmente agenda eleitoral, mas o gosto amargo da remota possibilidade de ser vergonha… Ah, esse gosto permanece.
Ou, pode ser simplesmente a demonstração involuntária de que o projeto de Daniel tem uma prioridade acima de todas as outras: chegar ao poder no Pará.
E, nesse projeto, o inimigo é apenas um sobrenome com longa tradição política: Barbalho. O resto, Lula, Bolsonaro, centro, direita, esquerda, PL, Podemos, parece ser apenas carne de linguiça.
Daniel pode até ter conquistado a direita. O 7 de Setembro, porém, deixou uma pergunta inconvenientemente simples: depois de conseguir o apoio, ele pretende ser fiel a ela?



