Estacionamento ao lado do Theatro da Paz entra na mira da Unesco e provoca debate sobre o futuro do centro histórico de Belém
Relatório do órgão técnico que assessora a Unesco aponta que vagas para carros comprometem a valorização do patrimônio histórico e reforça a necessidade de priorizar pedestres no entorno do principal teatro da capital.
O reconhecimento do Theatro da Paz como Patrimônio Mundial pela Unesco representa uma conquista histórica para Belém. No entanto, o processo de avaliação internacional também revelou um problema que há anos passa despercebido por boa parte da população: a predominância dos carros no entorno de um dos maiores símbolos culturais da Amazônia.
No relatório elaborado pelo ICOMOS (Conselho Internacional de Monumentos e Sítios), órgão técnico responsável por assessorar a Unesco na análise das candidaturas ao Patrimônio Mundial, os estacionamentos existentes ao lado do Theatro da Paz e ao longo da Avenida da Paz aparecem como um dos pontos negativos identificados durante a avaliação.
Segundo o documento, a ocupação desses espaços por veículos compromete a percepção do valor histórico e paisagístico do conjunto arquitetônico, formado pelo teatro e pela Praça da República.
Uma crítica que não impediu o reconhecimento
Apesar da observação, o Comitê do Patrimônio Mundial aprovou a inscrição dos Teatros da Amazônia — conjunto formado pelo Theatro da Paz, em Belém, e pelo Teatro Amazonas, em Manaus — na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco.
Ou seja, a crítica não foi suficiente para impedir o reconhecimento internacional. Ainda assim, ela permanece registrada oficialmente e serve como um importante diagnóstico sobre os desafios urbanos enfrentados pelas duas capitais amazônicas.
Mais do que uma questão estética, trata-se de uma reflexão sobre como cidades históricas organizam seus espaços públicos.
O patrimônio não termina na fachada
O Theatro da Paz não é apenas um edifício histórico. Seu entorno faz parte da experiência urbana e cultural que o monumento oferece.
Ao sair do teatro, o visitante deveria encontrar um ambiente convidativo à permanência: calçadas amplas, áreas de convivência, arborização, cafés, mobiliário urbano e espaços onde as pessoas possam caminhar, conversar e contemplar a arquitetura.
Hoje, porém, grande parte desse espaço é ocupada por filas de automóveis estacionados.
Na prática, o patrimônio acaba dividido com uma função que pouco dialoga com sua importância cultural.
Cidades para pessoas
Essa discussão acompanha uma das principais transformações do urbanismo contemporâneo.
O urbanista dinamarquês Jan Gehl, referência mundial em planejamento urbano, defende que cidades de qualidade devem ser planejadas prioritariamente para as pessoas — e não para os automóveis.
Sob essa perspectiva, equipamentos culturais como o Theatro da Paz deveriam funcionar como polos de convivência, estimulando o uso do espaço público, o comércio local e a circulação de pedestres.
Quando o entorno é ocupado por estacionamentos, parte desse potencial acaba sendo perdida.
Uma oportunidade para Belém
O relatório do ICOMOS pode ser interpretado não apenas como uma crítica, mas também como uma oportunidade.
Diversas cidades históricas ao redor do mundo reduziram vagas de estacionamento próximas aos seus principais monumentos para ampliar áreas de convivência, criar praças, instalar mobiliário urbano e melhorar a experiência dos visitantes.
No caso de Belém, medidas como a ampliação das calçadas, a redução gradual dos estacionamentos no entorno imediato do Theatro da Paz e a valorização dos espaços de permanência poderiam fortalecer ainda mais o centro histórico.
Essas intervenções também dialogam com os preparativos para a COP30 e com a necessidade de tornar a cidade mais acolhedora para moradores e visitantes.
Um debate que vai além dos carros
O relatório internacional deixa uma mensagem importante: preservar um patrimônio não significa apenas restaurar sua fachada.
Também é necessário qualificar o espaço que o cerca.
O Theatro da Paz é um dos maiores símbolos da história e da arquitetura amazônica. Seu entorno deveria refletir essa importância, oferecendo um ambiente onde as pessoas fossem protagonistas — e não apenas os automóveis.
O reconhecimento pela Unesco coloca Belém em evidência no cenário mundial. Agora, o desafio é fazer com que o espaço ao redor de seu principal monumento histórico esteja à altura desse título, transformando a Praça da República e a Avenida da Paz em lugares pensados, antes de tudo, para quem vive e experimenta a cidade.



