O que aconteceu no último domingo, no Mangueirão, vai muito além de um jogo entre Clube do Remo e Esporte Clube Bahia. Foi um recado claro — e alto — dado pela população paraense: o público quer ver os seus times, a sua identidade, o seu futebol.
Os 34 pontos de audiência registrados não são apenas um número impressionante. Eles superam, com folga, programas consolidados do horário nobre, como as novelas das 21h. Isso desmonta, de uma vez por todas, um argumento antigo e confortável: o de que o paraense prefere assistir jogos de times do eixo Rio-São Paulo.
Não prefere.
E nunca preferiu.
Um desinteresse que nunca foi do público
Durante anos, a TV Liberal adotou uma postura que, no mínimo, pode ser chamada de distante em relação ao futebol paraense. Mesmo quando não havia clubes do estado na Série A, faltou esforço para valorizar o que sempre esteve aqui: uma cultura futebolística forte, apaixonada e profundamente enraizada.
Enquanto isso, o espaço local encolheu. O Globo Esporte Pará segue com tempo reduzido na grade, rapidamente substituído pelo conteúdo do Globo Esporte RJ, que prioriza clubes de fora. É uma escolha editorial que ignora o interesse real do público.
E o mais curioso: os números sempre estiveram aí.
A TV Cultura do Pará, por exemplo, frequentemente alcança liderança de audiência ao transmitir partidas do futebol paraense, superando até clássicos nacionais como o Fla-Flu.
Ou seja, não é uma aposta. É uma certeza.
O futebol paraense não é coadjuvante
Belém respira futebol. Clube do Remo e Paysandu Sport Club movimentam multidões, geram engajamento massivo e carregam uma rivalidade histórica que é patrimônio cultural da Amazônia.
Ignorar isso não é apenas um erro estratégico — é um desrespeito com o público.
A ausência de transmissões do Campeonato Paraense, por exemplo, é sintomática. Como uma emissora líder simplesmente abre mão de um produto que tem audiência comprovada e apelo local?
O recado foi dado
A audiência de Remo x Bahia não foi um ponto fora da curva. Foi uma confirmação.
O paraense não quer ser tratado como espectador de segunda categoria, consumindo apenas o que vem de fora. Ele quer se ver representado, quer acompanhar seus clubes, quer vibrar com o que é seu.
Falta, agora, algo simples — mas essencial: vontade.
Vontade de investir, de valorizar, de entender que o futebol paraense não precisa disputar espaço. Ele já tem o seu — e, como ficou claro, tem também audiência de sobra para sustentá-lo.
O público já fez a parte dele.
Resta saber se a televisão vai, finalmente, escutar.



