A pesquisadora Tatiana Sampaio afirmou ter recorrido a ferramentas de inteligência artificial, como o ChatGPT, para lidar com críticas feitas ao estudo sobre a polilaminina e buscar novas estratégias para revisão do trabalho.
A pesquisa ganhou grande repercussão após relatos de melhora em pacientes com lesão na medula espinhal. O estudo foi divulgado em 2024 na forma de pré-print — uma versão preliminar de artigo científico que ainda não passou pela revisão por pares, processo tradicional de avaliação feito por especialistas antes da publicação em revistas científicas.
Segundo a pesquisadora, o manuscrito foi recusado por alguns periódicos científicos e, diante das críticas, ela decidiu revisar o texto e analisar novos caminhos para publicação. Nesse processo, afirmou ter consultado ferramentas de inteligência artificial para avaliar argumentos e possíveis ajustes no trabalho.
“Eu pedi para o ChatGPT me ajudar. Falei que estava vendo pessoas dizendo que não valia, que não funcionava. Ele me deu vários conselhos”, afirmou.
Críticas ao estudo
Entre as revistas que recusaram o artigo estão a Nature Communications e o Journal of Neurosurgery.
Os principais pontos levantados pelos revisores foram divergências sobre a taxa de recuperação espontânea de pacientes com lesão medular completa e a ausência de registro prévio do estudo em um banco internacional de pesquisas clínicas.
No trabalho, a equipe de Tatiana Sampaio afirma que cerca de 9% dos pacientes com lesão medular completa recuperam algum grau de função motora sem tratamento. No entanto, revisores citaram estudos que apontariam taxas maiores, chegando a cerca de 40% em determinados casos.
Essa diferença é considerada relevante porque a taxa de recuperação espontânea serve como base de comparação para avaliar se as melhorias observadas nos pacientes podem realmente ser atribuídas à polilaminina.
Falta de registro prévio
Outro motivo para a recusa do artigo foi a ausência de registro prévio do estudo em plataformas internacionais, como o ClinicalTrials.gov.
O cadastro em bases desse tipo é considerado uma prática importante para garantir transparência nas pesquisas clínicas. Ele documenta desde o início os objetivos e métodos do estudo, evitando mudanças no desenho da pesquisa após a obtenção dos resultados.
Segundo a pesquisadora, o registro acabou sendo feito apenas depois do início da pesquisa porque ela não sabia que essa exigência era adotada por muitos periódicos científicos.
Revisões no manuscrito
Tatiana Sampaio afirmou que pretende corrigir alguns pontos do pré-print após as críticas recebidas. Entre as mudanças estão a correção de um erro em um gráfico que mostrava dados de pacientes e ajustes na forma de apresentar exames utilizados na análise.
Outro ponto que será melhor detalhado é a avaliação de possíveis casos de choque medular, uma fase temporária que pode ocorrer logo após traumas na medula e que pode interferir na classificação da gravidade da lesão.
Próximas etapas da pesquisa
O estudo atual envolveu apenas oito pacientes e ainda é considerado preliminar. Para confirmar se a polilaminina é segura e eficaz, serão necessárias novas fases de pesquisa clínica.
A substância já recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para o início de um ensaio clínico formal de fase 1, etapa que avalia principalmente a segurança do tratamento em um pequeno grupo de voluntários.
Caso os resultados sejam positivos, o medicamento poderá avançar para fases posteriores de testes, quando são avaliadas a eficácia do tratamento, as doses adequadas e possíveis efeitos adversos em grupos maiores de pacientes.



