O açaí, alimento tradicional da mesa paraense, pode ir além do papel cultural e nutricional: ele também pode contribuir para a saúde mental. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) aponta que o consumo regular da fruta durante a adolescência pode reduzir sinais de ansiedade e depressão, além de fortalecer mecanismos de proteção do cérebro contra o estresse oxidativo.
A pesquisa foi realizada com ratos adolescentes e avaliou os efeitos do consumo oral de açaí clarificado — uma versão do suco com alta concentração de compostos fenólicos antioxidantes. Os resultados mostraram efeitos comportamentais positivos semelhantes aos observados com medicamentos ansiolíticos e antidepressivos, mas sem prejuízos à memória ou à coordenação motora.
Como o estudo foi feito
Os pesquisadores utilizaram 24 ratos jovens, equivalentes à fase da adolescência humana (aproximadamente 10 a 18 anos). Durante dez dias, os animais consumiram voluntariamente doses diárias de suco de açaí clarificado, calculadas com base na ingestão média da população amazônica — cerca de 500 ml por dia para um adulto.
Depois desse período, os animais passaram por testes comportamentais usados internacionalmente para avaliar ansiedade, memória e sintomas depressivos. Em seguida, os cientistas analisaram áreas do cérebro ligadas às emoções, como:
- córtex pré-frontal
- amígdala
- hipocampo
Também foram medidos marcadores bioquímicos relacionados ao estresse oxidativo e à proteção celular.
Menos ansiedade e menos comportamento depressivo
Os resultados chamaram atenção.
Nos testes de ansiedade, os animais que consumiram açaí se mostraram mais exploradores e menos receosos, comportamento interpretado como efeito ansiolítico.
Já no teste de depressão, passaram menos tempo imóveis, indicando maior disposição e motivação — um padrão associado a ação antidepressiva.
Importante: o açaí não alterou a memória nem a atividade motora, mostrando que os efeitos não estavam ligados a sedação ou prejuízo cognitivo.
Proteção do cérebro
Além das mudanças no comportamento, o estudo encontrou alterações biológicas relevantes.
Os pesquisadores observaram:
-aumento de enzimas antioxidantes no córtex pré-frontal
– redução de danos oxidativos na amígdala
-melhora do equilíbrio químico em áreas ligadas ao controle emocional
Segundo os autores, isso sugere que os compósitos fenólicos do açaí — especialmente as antocianinas — ajudam a proteger os neurônios contra inflamação e estresse oxidativo, fatores associados ao desenvolvimento de transtornos mentais.
Curiosamente, os níveis de serotonina e noradrenalina não mudaram, indicando que o efeito não ocorre pelo mesmo mecanismo dos antidepressivos tradicionais, mas sim por vias antioxidantes e neuroproteroras.
Por que a adolescência é importante?
Os cientistas destacam que a adolescência é um período de intensa reorganização cerebral, com maior sensibilidade a fatores externos, incluindo alimentação.
Nessa fase, o cérebro ainda está amadurecendo áreas responsáveis por emoções e tomada de decisão. Por isso, hábitos nutricionais podem influenciar diretamente o risco de ansiedade e depressão.
“O consumo de alimentos ricos em antioxidantes pode ajudar a proteger esse processo de desenvolvimento”, apontam os autores.
O que isso significa na prática?
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores reforçam que o estudo foi feito em animais. Portanto, não é possível afirmar ainda que o mesmo efeito ocorra em humanos.
Mesmo assim, os dados fortalecem evidências de que o açaí:
- é rico em antioxidantes naturais
- possui propriedades anti-inflamatórias
- pode contribuir para a saúde cerebral
Os autores defendem novos estudos clínicos em adolescentes para confirmar os benefícios.
Alimento tradicional com potencial científico
Símbolo da cultura alimentar amazônica, o açaí já é conhecido por seus benefícios cardiovasculares e metabólicos. Agora, pode também ganhar destaque como aliado da saúde mental.
Para os pesquisadores da UFPA, o trabalho reforça a importância de valorizar alimentos regionais não apenas como tradição, mas como potenciais estratégias naturais de promoção da saúde.



