A valorização da produção agrícola regional aliada à inovação científica tem impulsionado novas soluções sustentáveis na Ilha do Marajó. Um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Tecnologia em Alimentos, desenvolvido por estudantes da Universidade do Estado do Pará (Uepa), comprovou a eficácia da bromelina extraída do abacaxi Pérola — variedade local conhecida como “Cabeça de Macaco” — como amaciante natural de carne bubalina.
O estudo foi realizado no campus XIX da Uepa, em Salvaterra, pelas pesquisadoras e egressas Karla Costa e Nilciane Farias, sob orientação da professora Carmelita de Fátima Amaral Ribeiro. Intitulada “Estudo da ação da bromelina de abacaxi como amaciante de carne bubalina: uma valorização da produção de abacaxi de Condeixa, Salvaterra, PA”, a pesquisa conquistou o primeiro lugar na premiação de melhores trabalhos acadêmicos da instituição em 2025, em razão de sua relevância social e econômica para o estado.
A investigação concentrou-se na comunidade de Condeixa, onde o cultivo do abacaxi é a principal fonte de renda da agricultura familiar. As pesquisadoras identificaram que frutos pequenos ou fora do padrão comercial costumam ser subutilizados ou descartados. A partir disso, o projeto buscou uma alternativa sustentável para o aproveitamento integral da produção.
O amaciante foi desenvolvido no Laboratório de Tecnologia de Alimentos da Uepa, utilizando o abacaxi desidratado combinado a condimentos naturais. As análises laboratoriais apontaram um pH de 4,83, indicando acidez moderada, e 15° Brix, parâmetro que mede a concentração de açúcares. Os resultados garantem a estabilidade da enzima e a segurança para o consumo humano, conforme padrões reconhecidos pela literatura científica internacional.
Além do rigor técnico, o trabalho contou com apoio estratégico da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater-PA) e da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap). Foram realizadas entrevistas com produtores locais e testes sensoriais com consumidores para avaliar a eficiência do produto em diferentes cortes de carne bubalina.
Os resultados foram expressivos. Cerca de 87% dos avaliadores classificaram a carne tratada com o amaciante como “muito macia”, com elevada aprovação nos quesitos sabor, aroma e suculência. O desempenho superou as expectativas para um produto de origem natural e de baixo custo.
Segundo as autoras, um dos principais méritos da pesquisa foi demonstrar que a qualidade da bromelina independe do tamanho do fruto. Elas destacam que abacaxis fora do padrão comercial apresentam a mesma eficácia enzimática daqueles considerados ideais para venda in natura. O projeto também buscou valorizar a identidade regional, com rotulagem e marca inspiradas na cultura e no potencial turístico do Marajó.
Impacto social e econômico
A iniciativa criou uma ponte entre o conhecimento científico e a realidade dos produtores de Condeixa. Ao transformar excedentes da produção agrícola em um insumo de alto valor agregado, o projeto contribui para a redução do desperdício, o fortalecimento da agricultura familiar e a geração de novas oportunidades de renda.
Na avaliação de potencial de mercado, 92% dos consumidores afirmaram que comprariam o produto, o que reforça a viabilidade comercial do amaciante natural. O estudo aponta que a inovação pode abrir caminhos para a industrialização artesanal e o aproveitamento sustentável dos recursos locais.
Ao substituir produtos químicos sintéticos por insumos naturais abundantes na região, a pesquisa evidencia o papel da universidade no desenvolvimento sustentável. A Uepa destaca que o apoio institucional, por meio de laboratórios e infraestrutura técnica, é fundamental para que projetos acadêmicos se transformem em soluções concretas para a sociedade paraense.



