Um vídeo que circula nas redes sociais tem gerado indignação ao mostrar duas mulheres do Pará sendo alvo de comentários jocosos durante um passeio turístico no morro do Vidigal, uma das favelas mais conhecidas do Rio de Janeiro. As imagens mostram um motociclista, aparentemente responsável pelo transporte de turistas, fazendo piadas que associam as visitantes à ideia de que teriam vindo “de canoa” de uma “aldeia indígena” no Pará.
Enquanto registra a cena, o homem ironiza a presença das mulheres na fila para o passeio, dizendo que elas “largaram as canoas”, que teriam vindo “da aldeia indígena lá do Pará” e que comprou roupas para elas “na praça”, em tom de deboche. As falas são acompanhadas de risadas e reforçam estereótipos históricos sobre a população amazônica, frequentemente retratada de forma caricata e inferiorizada.
Em determinado momento do vídeo, uma das mulheres interrompe a encenação e questiona diretamente o motociclista:
“Isso é um passeio ou uma humilhação? É um passeio ou uma humilhação?”
Diante da reação, o homem muda rapidamente de assunto e encerra o diálogo, evitando responder à crítica explícita feita pela visitante.
Turismo, estigma e desigualdade
O episódio evidencia um problema recorrente: a transformação da pobreza e da desigualdade em produto turístico, muitas vezes acompanhada de discursos preconceituosos, especialmente quando os visitantes são oriundos das regiões Norte e Nordeste do país.
No caso das mulheres paraenses, a ironia sobre “aldeia indígena” e “canoas” reforça uma visão colonial e ignorante sobre o Pará e a Amazônia, ignorando a diversidade social, cultural e urbana da região e reduzindo seus habitantes a caricaturas exóticas.
O Vidigal e o “turismo de favela”
Localizada entre os bairros de Leblon e São Conrado, a favela do Vidigal é conhecida pela vista privilegiada para o mar e para o Morro Dois Irmãos, atraindo turistas brasileiros e estrangeiros interessados em trilhas, festas e passeios guiados.
Apesar da beleza natural, o turismo na comunidade é marcado por controvérsias. Além das regras impostas por grupos locais e do histórico de confrontos entre facções, há críticas frequentes ao modelo de exploração turística que transforma moradores e visitantes em personagens de um espetáculo desigual, onde a linha entre experiência cultural e humilhação é frequentemente ultrapassada.
Debate nas redes
Após a circulação do vídeo, internautas passaram a discutir se o episódio se tratava apenas de “brincadeira” ou de um caso claro de preconceito regional. Para muitos, o fato de as mulheres estarem pagando pelo serviço torna a situação ainda mais grave, já que o constrangimento partiu de quem lucrava com o passeio.
O caso reacende uma pergunta incômoda: até que ponto o turismo alternativo no Brasil está reproduzindo desigualdades históricas e normalizando a ridicularização de determinadas regiões e povos?



