Empresários dependentes do Estado: o “Bolsa Família” do andar de cima
A crítica seletiva à dependência estatal ignora a realidade de empresários que sobrevivem graças a incentivos, contratos públicos e privilégios concedidos pelo poder político
É comum ouvir de políticos liberais e empresários alinhados à Direita críticas duras às famílias que recebem o Bolsa Família. Segundo esse discurso, o programa alimenta uma “cultura de dependência” e freia o desenvolvimento econômico. No entanto, o Brasil está repleto de empresários que também são dependentes do Estado — embora prefiram esconder essa condição atrás de discursos sobre meritocracia, eficiência e livre mercado.
A diferença é que, enquanto o Bolsa Família transfere valores modestos a famílias em situação de extrema vulnerabilidade, o “bolsa empresário” é muito mais robusto. Vem na forma de contratos milionários com o poder público, isenções fiscais generosas, reserva de mercado disfarçada por regulação e burocracia, protecionismo e acesso privilegiado ao crédito subsidiado. Tudo isso sustentado pelo mesmo Estado que esses empresários afirmam querer “enxugar”.
Ludwig von Mises e Milton Friedman, dois dos principais pensadores do liberalismo econômico, foram categóricos ao denunciar a intervenção estatal como origem de distorções e privilégios. Para Mises, o verdadeiro livre mercado só pode existir quando há concorrência livre e regras iguais para todos. Friedman, por sua vez, alertava para os riscos do “capitalismo de compadrio” — quando empresários passam a usar o Estado não como um regulador neutro, mas como um instrumento para garantir lucros e sufocar concorrentes.
No Brasil, muitos desses empresários fazem lobby para que leis sejam moldadas a seu favor. Defendem benefícios fiscais para suas empresas, ao mesmo tempo em que condenam políticas sociais destinadas aos mais pobres. São contrários ao Bolsa Família, mas dependem da mão amiga do Estado para manter seus lucros. Clamam por “menos Estado”, mas somente quando isso atinge os outros. Quando se trata de seus interesses, querem um Estado forte, protetor, garantidor de mercado e financiador.
Essa incoerência revela que o problema não está na dependência em si, mas em quem está dependendo. Quando é o pobre que precisa de apoio, o discurso da austeridade e do mérito aparece. Quando é o grande empresário, o discurso muda: vira “estímulo à economia”, “segurança jurídica” ou “planejamento estratégico”.
É preciso, portanto, ser honesto no debate público. Criticar políticas assistencialistas enquanto se beneficia de contratos públicos, renúncias fiscais e regulações favoráveis é hipocrisia. Antes de apontar o dedo para quem depende do Bolsa Família, muitos empresários deveriam olhar no espelho e reconhecer que também vivem, direta ou indiretamente, de repasses do Estado. Apenas trocaram a fila do CRAS pelos corredores do Congresso.



