Pará perde o brega e a castanha: símbolos culturais agora pertencem oficialmente a outros estados
Após Acre ser reconhecido como Capital Nacional da Castanha, Recife ganha o título de Capital Nacional do Brega. Falta de articulação política deixa o Pará sem reconhecimento formal de suas manifestações culturais.
Em menos de um mês, o Pará viu dois de seus principais símbolos culturais serem oficialmente reconhecidos por outros estados. Depois de Sena Madureira, no Acre, ser declarada Capital Nacional da Castanha-do-Pará, agora foi a vez de Recife, em Pernambuco, conquistar o título de Capital Nacional do Brega, aprovado nesta terça-feira (13) pela Comissão de Educação e Cultura (CE) do Senado.
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A proposta que concede o reconhecimento ao brega recifense é de autoria do deputado Felipe Carreras (PSB-PE) e teve relatoria favorável do senador Humberto Costa (PT-PE). Como foi aprovada em decisão terminativa, a matéria seguirá para sanção presidencial, salvo se houver recurso para análise no plenário.
“O brega foi uma manifestação cultural muito forte inclusive durante a ditadura militar, quando esse movimento falava para uma população oprimida. Foi uma forma de resistência”, afirmou Humberto Costa, ao justificar o projeto.
A decisão causou desconforto no meio artístico paraense, onde o ritmo é considerado parte essencial da identidade musical do estado. Em Belém, o brega se popularizou com nomes como Wanderley Andrade, Banda Calypso e outros expoentes do chamado “brega-pop”. Ainda assim, nenhum parlamentar paraense apresentou projeto de reconhecimento semelhante para o Pará.
O episódio soma-se à recente oficialização do município de Sena Madureira, no Acre, como Capital Nacional da Castanha-do-Pará. A honraria foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e publicada no Diário Oficial da União. A proposta, de autoria do ex-deputado e atual prefeito Gerlen Diniz, teve apoio no Senado do acreano Alan Rick (União-AC).
Conhecida popularmente como “castanha-do-Pará”, o fruto é símbolo da Amazônia e possui grande valor nutricional e econômico. Apesar disso, a mobilização política que garantiu o título coube ao Acre, mesmo com a nomenclatura que remete diretamente ao estado do Pará.
Para produtores culturais e especialistas ouvidos, a ausência de iniciativas da bancada paraense revela uma falta de articulação política na defesa e valorização do patrimônio imaterial do estado. O caso do Carimbó é emblemático: mesmo reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil desde 2014, o ritmo ainda não possui título nacional que relacione oficialmente sua origem ao Pará.
O reconhecimento formal de manifestações culturais tem implicações práticas: atrai investimentos, fomenta o turismo e fortalece a identidade cultural dos estados. Para artistas e defensores da cultura amazônica, o Pará corre o risco de seguir perdendo espaço e visibilidade caso continue negligenciado no Congresso Nacional.



