Pesquisa nacional sobre coronavírus é interrompida, com truculência, pela polícia de Santarém
Santarém (PA) – Policiais militares e civis, com apoio da Divisão de Vigilância Sanitária de Santarém, impediram na quarta-feira, 13, que o instituto Ibope Inteligência fizesse, durante dois dias, uma pesquisa em curso em todo o País sobre a prevalência do Covid-19 na população brasileira. A coordenação do estudo é da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com financiamento do Ministério da Saúde.
A truculência da ação foi mostrada em reportagem no programa Fantástico, de Rede Globo, na noite de domingo, 17. A mesma ação da polícia foi verificada em outras cidades com Marília e Araraquara, no interior de São Paulo., Barra do Garças (MT) e outros.
O estudo é feito pelo Ibope sob coordenação do Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas). A pesquisa é financiada pelo Ministério da Saúde e seu custo estimado é de R$ 12 milhões, dos quais R$ 9,975 milhões ficarão com o Ibope. O objetivo é verificar como o vírus está se propagando em todo o Brasil para criar políticas públicas mais eficientes de combate à pandemia.
Impedimento – Uma equipe da Divisa da Prefeitura de Santarém deu apoio à ação da polícia, que recolheu kits de testes rápidos e equipamentos de proteção individual dos pesquisadores (EPIs), e conduziu alguns envolvidos para a delegacia, sob a justificativa que a realização dos testes era ilegal e não tinha autorização dos órgãos oficiais. Os pesquisadores ficaram detidos por mais de oito horas na delegacia Nova República, de Santarém.
Ainda na quarta-feira, 13, a Prefeitura de Santarém informou que o Ibope Inteligência não tinha tinha comunicado a realização da pesquisa à Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa).
Versão em nota – A Prefeitura de Santarém informou, em nota enviada à produção do Fantástico, da Rede Globo, que não foi comunicada pelo Ministério da Saúde sobre a realização de uma pesquisa nacional para aferir o índice de imunidade da população diante do novo coronavírus.
As pesquisadoras do Ibope Inteligência ficaram por mais de 8 horas na delegacia de polícia da Nova República, após fiscais da Vigilância Sanitária e policiais militares, sem mandado judicial, invadirem residências de pesquisadores e da coordenadora das equipes para aprender kits de testes rápidos e equipamentos de proteção individual usados durante as entrevistas domiciliares.
A alegação da Prefeitura de Santarém de que a pesquisa não foi comunicada às autoridades de saúde é contestada pelo Ministério da Saúde, que informou que fez a comunicação à Secretaria de Estado de Saúde (Sespa) no último dia 12 de maio. No próprio site do Ministério da Saúde a pesquisa foi divulgada com antecedência.
Apoio – Quanto ao apoio que a Prefeitura informou que daria à continuidade da pesquisa, os fatos demonstram que isso não se materializou, por enquanto. Mesmo informada pela coordenadora regional da Sespa, em Santarém, enfermeira Marcela Tolentino – que chegou a se solidarizar publicamente com as pesquisadoras que foram vítimas de situação de abuso -, a Secretaria Municipal de Saúde de Santarém não atuou para que o episódio fosse encerrado imediatamente.
Recusa – A Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) foi procurada pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) para coordenar a segunda etapa da pesquisa sobre coronavírus que foi interrompida de forma truculenta pela Polícia Civil, Polícia Militar e Divisão de Vigilância Sanitária de Santarém, na última quinta-feira (14).
O portal O Estado Net apurou que diante do abalo moral que as pesquisadoras sofreram com a ação arbitrária a primeira etapa da coleta de campo será cancelada, pois as entrevistadoras se recusam a prosseguir com as pesquisas domiciliares.
Por volta do meio-dia desta segunda-feira, 18, e após cumprimento de várias exigências burocráticas, o material apreendido ilegalmente foi devolvido. As pesquisadoras foram auxiliadas durante o recebimento por integrantes do curso de bacharelado em Saúde Coletiva da Ufopa.
A Ufopa, que vai prosseguir com a pesquisa do Ministério da Saúde, já em segunda fase, visto que a primeira não poderá ser concluída, já desenvolve projetos em parceira com a UFPel no estado do Pará.
Com informações do portal O Estado Net



